Tarde pra lembrar
ISABELA MICHELAN BERALDO
Era aniversário da Carol. Sua mãe e sua avó viriam de sua cidade para visitá-la. Decidimos que era o motivo para uma festa. Um pequeno bolo, a Carol, seu namorado e a gente!
Éramos cinco amigos. Um grupo que se formou do meio para o fim da faculdade. Eu, Bin, Pedro, Paula e, claro, a Carol. Confesso: era a mais ausente no grupo. Mesmo assim, me sentia parte dele. Estivemos juntos em algumas ocasiões divertidas e, às vezes, um tanto inusitadas. Como quando, para escapar de uma enchente gerada pelas tempestades de verão próprias de Bauru, a Paula, exímia motorista, subiu em uma pequena praça com o carro e todos nós dentro.
Bauru é a minha cidade e também a da Paula. Éramos duas dos três bauruenses de uma sala de mais de 40. Esses vieram para cá com o intuito de estudar. É claro, incluíram nos planos festas até ao amanhecer (confidências a contar, e a produzir também) e umas cervejas a mais (isso sempre deixa o riso mais fácil, não acham?). O período da faculdade sempre deixa saudades. Novidades, diversão, desafios... E até, pasmem, uma pitadinha de dedicação! Lembro-me das muitas vezes que viramos noites terminando os jornais-murais que montávamos semanalmente para uma disciplina da faculdade. Cursávamos Jornalismo. E montar aqueles jornaizinhos, na época, parecia coisa grande.
Naquela tarde de domingo, o sol estava à toda. Bauru é uma cidade quente e sem vento. Em alguns dias de temperatura alta, parece que o calor ganha forma física e te envolve, mas não suavemente. É como se te agarrasse e não soltasse mais. O clima de Bauru incomoda a maioria das pessoas. Não a mim, que cresci habituada a ele. Minhas memórias de infância incluem tardes folgadas, em frente de casa, com brincadeiras como pique, bola e patins e o peculiar mormaço da cidade.
Mas, voltando ao episódio assunto deste texto, naquele dia, após o almoço, preparado pela mãe da Carol, e o tradicional “Parabéns”, sentamos todos no quintal da casa. Bem, não era bem uma casa. A Carol morava em uma de seis kitchenettes grudadas uma às outras. Esse tipo de edificação é comum em Bauru, considerada “cidade-universitária”. Atrás das “pequenas casas”, havia uma área ampla e aberta, com pias e varais, próprios para lavanderia.
Não me lembro bem ao certo como começou. Nem mesmo o que motivou aquela situação. Recordo-me apenas que, em determinado momento, estávamos, nós cinco, mais o namorado da Carol (nunca me lembro o nome dele), com baldes cheios de água na mão, fazendo a maior farra. Passamos horas molhando uns aos outros, correndo, com os baldes transbordando de água, prontos para ensopar o primeiro que desse bobeira na nossa frente.
Éramos seis jovens de vinte e poucos anos parecendo as crianças mais felizes do Mundo. Naquele dia, me lembrei de uma parte boa de mim, que se divertia com coisas simples e inocentes.
Terminamos a tarde com as roupas encharcadas, sentados no quintal sob o sol quente, rindo feito crianças daquela situação hilária e inesperada.
Daqueles momentos, além das fotos, ficou a lembrança do sabor doce de amizades boas e puras. Aquele dia entraria para o rol dos mais felizes de minha vida.