Como Medir a Amizade
WANIA NUNES REGO
Quando pequena, por volta dos meus oito anos, gostava de passar alguns dias das minhas férias na casa da tia Valdina, no Gama. Ela havia se casado há pouco tempo e tinha dois filhos pequenos Washington e Wilton. Anos depois vieram mais dois Jacqueline e José.
Adorava brincar de casinha, cuidar dos priminhos pequenos fazendo deles meus filhos. Enquanto brincava de casinha, dava-lhes banho, a papinha e os entretinha, e a tia Valdina cuidava da gente, dos afazeres da casa ou das costuras. É aí que começa a história.
Certo domingo de janeiro, nublado e muito chuvoso, eu passava o pano no chão da casa. O piso era de cimento queimado, tingido de vermelho, apelidado de vermelhão. Após passar cuidadosamente o pano no chão, o lustrei com uma escova bem pesada, como se fazia naquela época. Ao final do trabalho fiquei orgulhosa do que havia feito. Fiquei brincando, olhando para o chão na intenção de ver a minha imagem, como se fosse um espelho.
Mas eis que a minha brincadeira foi interrompida pela chegada de, nada menos, quinze piauienses que chegavam para uma visita de domingo, pessoas amigas dos meus tios. Eles vinham de diversos locais e, como eram pessoas simples, muitas vieram caminhando e enfrentando as intempéries daquele dia. Os pés eram só barro vermelho, assim como as barras das calças e as roupas molhadas.
Ah, fiquei emburrada ao ver aquele batalhão todo enlameado querendo acabar com a minha brincadeira. Não tive dúvida, mandei que antes de entrarem na casa retirassem os calçados e se limpassem, pois corria o risco de ver destruído o espelho que acabara de criar. Mas, meus tios chamaram a minha atenção, pediram aos nobres visitantes para não se incomodarem comigo, pois era uma criança e não entendia sobre essas coisas de amizade. Então a tia Valdina me disse: “Os amigos são mais importantes do que um chão limpo. O chão limpamos depois. Deixa que se suje. Os amigos temos que tê-los agora e sempre.”
Não compreendi, confesso que, na minha meninice, fiquei com raiva mesmo e corri para o quarto e chorei.
Hoje, passados vinte e poucos anos, vivi. Tornei-me adulta, mulher, mãe de verdade.
Meus filhinhos de brincadeira tornaram-se homens. Homens bons: Washington bombeiro militar e Wilton brigadista de incêndio. Ambos apaixonados pela profissão. Com destaque para Washington que me confessou, certo dia, não saber como seria sua vida se escolhesse outra profissão. O que gostava mesmo era de salvar pessoas. Era tamanho o amor dele pela profissão que levava tatuado no seu corpo a águia representativa da corporação.
Numa tarde de setembro de 2008, fui surpreendida com um telefonema de minha mãe interrompendo meus afazeres do trabalho: Washington morreu em um treinamento de mergulho no Lago Paranoá. Foi muito duro saber que o meu filhinho de brincadeira morreu. A vontade era gritar, gritar, se revoltar e dizer: “Deus, por que isso?”. Não tem explicação! Como isso aconteceu? Meses depois, a família soube do laudo: afogamento. E acredito ter havido, no mínimo, uma imprudência por parte dos instrutores, pois uma pessoa não morre afogada sem antes pedir socorro, sem antes desmaiar. Até o óbito se consumar leva algum tempo. No mínimo, deveria existir mais sensibilidade: uma pessoa desmaiada não pede para sair do treinamento! Washington Nunes era um oficial notadamente treinado, capacitado e em plenas condições físicas. Ainda não temos explicações plausíveis. Só saudades e sofrimento...
Bem, mas o que tem a ver com o início da história?. Eu vou lhe contar.
As pessoas simples que chegaram naquele dia das férias de janeiro na casa da tia Valdina, continuam amigas de nossa família, especialmente dos meus tios. Elas tiveram filhos, netos, bisnetos o que fez com que a amizade crescesse de forma geométrica. E essas pessoas nos ampararam de uma forma tão genuína que não temos como retribuir a atenção e o compartilhamento do sofrimento, da nossa dor com elas. E foi a partir desse episódio que compreendi, depois de adulta, sobre a importância dos amigos que a tia Valdina me havia falado na infância.
Tenho agora um parâmetro para medir a amizade: é o mesmo utilizado pelos meus tios que abriram as portas de sua casa e receberam aquelas pessoas que vieram de longe só para estar junto com eles, só para passar um domingo. E nessa visita, não se levou em conta o que tinha de almoço, se a casa era rica, confortável, limpa, nem a profissão dos anfitriões. E ainda hoje essa rotina se repete naquela casa do Gama. O que importa ali é só uma coisa: a amizade.
E graças a essas pessoas meus tios estão conseguindo se reorganizar emocionalmente e estamos sobrevivendo, não conformados, mas confortados pelos amigos que sabemos, são muitos e são verdadeiros.
Hoje digo aos meus filhos de verdade: não olhem o que as pessoas têm, nem a posição social delas. Meçam o amigo com a trena do coração, ou seja, grau da amizade se mede pelas coisas que agregam sentimentos bons, pela reciprocidade de carinho, afeto e atenção. Pela necessidade de dar sem interesse em receber. Pela alegria de estar junto fazendo multiplicar a felicidade ou de estar junto para dividir o sofrimento. Não fiquem aborrecidos pelo trabalho que dá fazer amigos: se há bagunça, limpamos depois, quem sabem juntos com os amigos bagunceiros... Quanto à amizade temos de cultivá-la agora e sempre. É o que importa nessa vida breve. E só.