Gregório e Pedro Inácio
GIULIANO MARCOS MARTINATI

Gregório tirou os chinelos, apagou a luz do velho abajur e se deitou. Acomodou a cabeça no travesseiro e esticou o braço; tateou com as pontas dos dedos a madeira do criado-mudo até encontrar o porta-retrato, que apanhou e trouxe até si. “Boa noite” murmurou; beijou sua saudosa Yolanda e a colocou de volta em seu lugar.
Estava prestes a se render ao sono quando ouviu um ruído distante, quase imperceptível. Tentou ainda se concentrar, deixar aquela perturbação fora de sua mente, mas agora o som aumentava, e já era possível defini-lo: eram passos; pequenos passos na verdade. Gregório abriu os olhos e sentou-se na cama. Praguejou por alguns instantes e acendeu a luz, na tentativa de vê-lo: como sempre, isso não foi possível. Por entre os dentes, pronunciou o odioso nome: “Pedro Inácio!”.
Pedro Inácio era um rato que, toda noite, assim que Gregório se deitava, circulava pela casa a procura de alimento. Aparecera um mês após a morte de Yolanda, há um ano, e parecia ser um roedor de incrível capacidade intelectual: todos os artifícios usados por Gregório falharam na tarefa de exterminá-lo. Armadilhas, ratoeiras e venenos diversos mostraram-se totalmente ineficazes; restava Pedro Inácio percorrendo todos os cantos da casa, gozando aparentemente de excelente saúde. O som de suas patinhas batendo contra o assoalho de madeira era algo insuportável para o velho Gregório, que invariavelmente perdia o sono tão logo o rato começava seu passeio noturno. Nessas horas, sentava-se na cama e ficava escutando as incursões do pequenino, até que o danado saciasse sua fome e retornasse a seu ninho, situado em local desconhecido.
Havia mais ou menos seis meses que Gregório passara a falar com o impertinente roedor, desde que batizou o bicho de Pedro Inácio (Pedro Inácio era seu cunhado, irmão de Yolanda, sujeito folgado e preguiçoso que todos os finais de semana aparecia para fazer as refeições). Aparentemente, isso ocorria sem que o velho tivesse plena consciência do fato; assim que o roedor o despertava, Gregório se punha a ameaçá-lo, bradava vitupérios, rogava pragas terríveis. Parecia detestar o animal com todas as suas forças.
Algumas vezes, no entanto, quando não estava sentindo sua habitual dor nas costas, ou mesmo se o Palmeiras ganhava, Gregório até conseguia ser um pouquinho menos agressivo com seu indesejável hóspede. Nesses momentos, era capaz de fazer comentários como “me deixa um pouco de feijão, Pedro Inácio” ou “deixei cair um pedaço de frango frito atrás do fogão, vê se some com isso daí”. Em raríssimas ocasiões, como no último Natal, o primeiro de Gregório sem Yolanda, Pedro Inácio encontrou uma porção de guloseimas embaixo da pia da cozinha, deixadas “por acaso” pelo velho sobre um pedaço de papel-toalha.
Certo dia, enquanto comprava pão, Gregório ouviu falar sobre uma isca para ratos que, segundo Seu Joaquim da padaria, era infalível:
- Estou dizendo, Seu Gregório, é tiro e queda: você faz uma massa com queijo ralado, leite e fermento de padaria, coloca numa ratoeira e apaga a luz. Os bichos ficam loucos com o cheiro, atacam como piranhas, sem pensar duas vezes.
À noite, antes de se deitar, Gregório armou sua ratoeira embaixo da pia da cozinha, colocando sobre ela a mistura que fizera, conforme a receita do português. Apagou a luz e permaneceu sentado na cama. Alguns minutos se passaram. Súbito, ouviu-se um “clék!”, seguido de um guincho estridente. Seu coração disparou; acendeu a luz do quarto e correu para a armadilha. Queria ver Pedro Inácio, imaginava-o enorme, sarnento, o rabo pelado e comprido, os olhos vermelhos. Acendeu a luz da cozinha, e se surpreendeu: Pedro Inácio era um rato bem franzino, cinzento, olhinhos pretos e brilhantes. A ratoeira o prendera pela barriga, e do seu focinho escorria uma gota de sangue.
Gregório o observou por alguns instantes e voltou para o quarto. Esticou-se na cama, estranhava não estar feliz. “Agora estou em paz”, falou em voz alta, ou para que o roedor o ouvisse, ou para que se convencesse de algo. “Agora estou sozinho...” falou logo a seguir, num som quase inaudível até para ele mesmo. No escuro, pôs a mão sobre o criado-mudo, e teve dificuldades em localizar o porta-retrato. “Onde está essa fotografia?”, pensou, e de imediato sentiu o peso desse pensamento. Tomou consciência de que, durante todo esse tempo, desejava boa noite para um retrato, um pedaço de papel. Percebeu que não havia ninguém ao seu lado quando se deitava, nem quando acordava; não havia ninguém a seu lado em momento algum.
Fechou os olhos e sentiu, de forma terrivelmente angustiante, a dor da solidão. Lembrou-se de Pedro Inácio agonizando na ratoeira; devia estar sentindo uma dor insuportável, talvez já estivesse morto. Sentiu um súbito ódio por Seu Joaquim da padaria, repetia para si mesmo: “português miserável, me fez matar meu companheirinho...” Saltou da cama enquanto pesadas lágrimas vertiam de seus olhos; foi para a cozinha o mais rápido que lhe permitiram suas pernas que, em dois meses, completariam sete décadas de caminhadas. Temia ver o corpo de Pedro Inácio já inerte, sem vida. Sentia um terrível aperto no coração, estava profundamente arrependido da cilada que armara para o pobrezinho.
Teve um sobressalto quando notou que Pedro Inácio ainda estava vivo; o pequeno ainda abanava o rabinho de um lado para o outro. Deu um grito, misto de alegria e aflição, e avançou para o animal como se corre para acudir um filho ferido. Abriu a ratoeira e, com as duas mãos, pegou delicadamente o rato. Sentou-se no chão da cozinha e apertou Pedro Inácio contra o peito. Ainda soluçava; rezava para São Francisco, repetia baixinho “aguenta Pedro, aguenta, meu Pedrinho...”. Por toda a noite, velou o moribundo roedor.

Um mês se passara. Era noite; Gregório segurava o porta-retratos de Yolanda nas mãos. Beijou a testa da sua amada e a devolveu ao seu lugar ao lado da cama. Descalçou os chinelos, apagou a luz do velho abajur e se deitou.
Aguardou por alguns instantes, e nada. Esperou mais um pouco, e nenhum som se ouvia. Já estava aflito quando escutou passinhos bem sutis sobre o assoalho. Sorriu; em seguida, forçosamente, fez cara de zangado, franzindo as grossas sobrancelhas. “Rato danado!”, disse em voz alta. “Tomara que engasgue com a marmelada!” Referia-se ao pedaço de doce que deixara, “acidentalmente”, sob a pia.
Permaneceu acordado até ouvir Pedro Inácio voltando para sua toca. Em seguida, adormeceu tranquilamente.


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