FEITIÇO (ao amigo que apareceu na hora certa)
LUIZ SERGIO E SILVA
Eu estava assim...
pássaro de asas quebradas
a pensar na liberdade do voo.
Será que ainda poderei voar?
Será que ainda há, no ar,
a possibilidade dos meus voos?
Deixaram-me assim impedido,
doente esperando cura.
Quem virá tratar minhas asas?
Impulsionar-me a novamente voar
Quem?
Ou, quem virá convencer-me:
Cura-te a ti mesmo?
Tantas indagações quanto ausências de respostas.
Resta-me a janela, fugaz esperança,
aberta ao céu e à lembrança.
Espetáculo de cores o fim de tarde!
Harmonia... Pinceladas perfeitas...
Mas eu ali, pássaro de asas quebradas,
entre acuado e medroso.
Triste, miseravelmente triste!
Contemplando um entardecer
que não me espera e logo se faz noite.
Desço, sem rumo,
meu olhar de autopiedade.
E olha o que, de repente, vejo:
do meio dos arbustos,
uma luzinha pipocando no ar surge.
O vaga-lume faz seu breve espetáculo
E some...
Deixando-me sua luz, lição de brilho.
Uma súbita disposição começa a mudar-me por inteiro.
Quem sabe agora darei um jeito
nestas minhas asas quebradas,
e coloque um pouco mais de brilho
no meu voo que já é livre?
Pensei, então, ainda à janela,
sentindo a vida pulsar
e impulsionar-me
a querer novamente voar.