O Carteado
JOAO FRANCISCO COSTA SILVA

Os olhos de Adão “Panelinha” brilharam intensamente, um sorriso quase imperceptível se desenhou nos lábios finos, ressecados e roxos de tanto fumar. Apesar do calor intenso dentro da saleta, um calafrio percorreu-lhe a espinha, remexeu-se na velha cadeira de ferro; das três cartas recebidas por ele, duas eram curingas. Estava com sorte, enfim, naquela noite, pensou ele. Logo ele, jogador viciado e notório azarado. Jogava por vício e porque não tinha nada o que fazer. Era solteiro e gastava todo o dinheiro da mísera aposentadoria com jogos, cigarros, cachaça e, esporadicamente, alguma puta decrépita. O jogo de cartas era o PIF-PAF e naquela partida quem dava as cartas era Zé “Piloto”, pedreiro de profissão e biscateiro por necessidade, que já estava meio “alto” pelas várias doses de cachaça que já lhe descera goela abaixo. O baralho era velho e seboso, culpa de Zé Pereira, dono do estabelecimento, misto de boteco e antro de jogatina, e “Piloto” precisava, após separar as cartas, que estava distribuindo de três em três, friccioná-las umas contras as outras pra se certificar que só havia a quantidade certa, pois cada jogador só podia receber nove cartas. Qualquer erro poderia ser fatal, vez que, recebendo mais ou menos cartas, qualquer um dos jogadores poderia “mexer”, isto é, cancelar, a partida. As seis cartas seguintes que Adão “Panelinha” recebeu eram dois jogos prontos. Puta que pariu! exclamou mentalmente, tô “batido”; era só esperar Zé “Piloto”, que era o “mão”(1), acabar de dar as cartas, e ele, que era o próximo do “mão”, compraria (3) uma carta e bateria a partida. Completavam a mesa Joaquim “Leite”, negro retinto, jogador compulsivo, outro miserável como ele, e “Vula”, o “Gato”, da família dos “Gatos” (o apelido era porque todos da família tinham a cara do felino e não porque eram lindões), que estava cheio da grana, pois acabara de receber uma herança e há dias estava estourando todo o dinheiro com farras, jogos e mulheres.

“Panelinha”, num gesto de extremo nervosismo, que era quase um tique nervoso quando estava jogando e recebia umas boas cartas, empoleirou-se de cócoras na cadeira. Um pensamento terrível, porém, veio-lhe à cabeça: E se Zé “Piloto” errasse na contagem das cartas? Seria o fim. A partida era alta e ele iria recuperar tudo que perdera naquela noite e ainda ia ganhar uma bolada. Gaguejou roucamente, quebrando o silêncio quase sepulcral da fumacenta e abafada saleta: - Ô-ô-ô, Zé “Piloto”, dá as cartas devagar, pra você não errar, tá? Falou num tom quase paternal. Zé “Piloto”, que àquela altura suava copiosamente, dava as últimas cartas, só restando distribuir para Joaquim “Leite” e ele próprio, interrompeu no ar o movimento das mãos e pensou consigo mesmo: - Esse lazarento tá achando que não sei contar. Tenho o primário quase completo, sei escrever meu nome e quase sei ler; vai se lascar... Soltou uma baforada do fedorento cigarro de palha sem tirá-lo da boca, lançou um olhar de poucos amigos para o “Panelinha” e terminou de dar as cartas.

A mão de Adão “Panelinha” voou célere para o monte de cartas, porém, antes que as alcançasse, a voz estridente de Joaquim “leite” chegou aos seus ouvidos: Parô, Parô, vamo tê que mexer o jogo, eu tô com dez cartas!! “Vula”, o “Gato”, que saíra com um jogo quase todo dobrado(4), foi o primeiro a atirar suas cartas no monte, Zé “Piloto”, idem, enquanto Joaquim “Leite”, pra provar o que dissera, contava em voz alta as cartas do velho baralho, uma a uma. Adão “Panelinha” porém não ouvia nada, estava em transe, sentia como se o chão lhe tivesse sumido dos pés, uma ira profunda começou a tomar conta de todo seu ser, o sangue subiu-lhe todo à cabeça. De onde estava saltou na garganta de Zé “Piloto”. Foi carta pra todo lado, fichas, copos de cachaça, cinzeiros imundos, a esfarrapada coberta “sapeca negrim” que cobria a mesa, foi tudo ao chão de terra batida; a mesa só não caiu porque era de madeira, daquelas redondas, feitas com aqueles carreteizões de enrolar fios de eletricidade e estava fincada no chão. “Panelinha”,gritava histericamente, enquanto apertava cada vez mais a goela de “Piloto”: -Zé “Piloto”, seu nêgo filho-de-uma-égua, analfabeto, desgraçado, cê num sabe contar, não , infeliz dos infernos!!! Vou fazer o que a parteira devia ter feito: te matar!! Zé “Piloto” desmaiou, menos pela esganada e mais pelas cachaças que tinha tomado e a pancada que tomou ao bater com a cabeça no chão duro. “Panelinha” largou-lhe a goela, sentindo-se vingado. Recolheu suas fichas, assim como Joaquim “leite” e “Vula, o Gato” tinham feito e dirigiu-se ao “caixa” pra trocá-las. Já quase no balcão, voltou à saleta, recolheu o baralho, parou em frente a Zé “Pereira” e com um olhar de louco, língua pra fora, quase babando, rasgou o “seboso”, carta por carta. “Pereira” não soltou um pio sequer, contou as fichas e pagou Adão. Este, num último gesto, pediu uma garrafa de “Sete Voltas” e disse, em mais uma vingançazinha pessoal: - Anota aí, depois eu pago. Saiu à rua, o dia quase já amanhecia, a rua do “Quebra viola” estava deserta. Respirou fundo o ar fresco da madrugada e rumou pro seu quartinho. Estava exausto. Pensou:- Vou encher a cara, comer uns dois ovos fritos com aquele arroz de ontem, dormir e quando eu acordar passo lá no Zé “Pereira” pra jogar um “pifizinho” que ninguém é de ferro. Quem sabe não tem baralho novo...


Notas: 1. Num jogo de cartas o “mão” é quem dá as cartas;. 2- “batido” é aquele que primeiro completa três jogos (3 cartas em sequênçia ou 3 cartas iguais de naipes diferentes); 3-“Comprar” é o mesmo que retirar uma carta do baralho; 4- Sair com um jogo dobrado é receber cartas iguais do mesmo naipe e que nada valem.


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