De tarde, pipas!
ANDRE LUIS DE CARVALHO BRUM
Era uma tarde perfeita! O sol ardia num céu de azul absoluto, nenhuma nuvem espreitava o horizonte. Ruas sem carros, adultos em casa vendo televisão e sorveteiros passando, a gritar suas guloseimas, compunham o cenário preferido dos meninos do bairro. Era dia de soltar pipa!
Na Rua Tenente Brito, de casas baixas e nenhum edifício, à uma hora da tarde não havia sombra disponível. Ou melhor, havia uma, ínfima, produzida pelo pé-de-laranja da casa de Dona Eulália, que ainda jovem planta, mal conseguia apontar seus galhos para além do alto muro que cercava a propriedade. Naquela nesga de oásis, pipa em uma mão, sacolé na outra e canelas ao sol, estava Renam.
Suando em bicas, e com seu quitute já derretendo, cuidava para que não molhasse seu brinquedo. Já estava lá há quinze minutos, desde que berrara pelo amigo, que morava em frente, para juntar-se a ele, ao que a mãe berrou de volta que este já sairia. Esperando, Renam fervia, não apenas pelo calor que fazia, mas na expectativa de encontrar o companheiro. Hoje, pensava ele, Zé Carlos vai sofrer na minha mão!
Renam e Zé Carlos contavam 12 e 11 anos, respectivamente, e eram amigos desde que o primeiro mudou-se para aquela rua, onde Zé vivia desde que nascera. Como é natural às grandes amizades nesta idade, o divertimento de um incluía sempre o outro, e apesar disso, ou talvez em função disso, brigavam quase que diariamente, para no dia seguinte – ou no mesmo dia – esquecerem as diferenças. Futebol de botão, álbuns de figurinhas, partidas de ping-pong e lanches da tarde eram o seu cotidiano fora da escola – esta sim diferente, pois Zé Carlos estudava em colégio particular, coisa que as posses mais modestas da família de Renam não permitiam.
Numa época diferente de hoje, em que as coisas do amor ainda não afligiam corações tão jovens, meninas não faziam parte de seu mundo. A não ser quando vinha a prima de Renam passar dias em sua casa, ocasiões em que sua mãe o obrigava a pajear a menina. Renam detestava, o amigo idem! Fosse ela dada a corridas atrás de pipa, peladas no campinho e jogo de bafo, tudo bem! Mas ela era menina muito menina mesmo, que gostava de cheirar flores, brincar de queimado, comprar balas de chiclete na quitanda e, por medo de cachorro, andar de mãos dadas com o primo. O pobre corava de vergonha! E morria, de fato, quando a menina o chamava, na frente dos outros, de Nanzinho! Era Nanzinho pra cá, Nanzinho pra lá... O menino não sabia onde enfiar a cara, e era só a prima não estar por perto para Zé Carlos iniciar a gozação!
Caçoar um do outro, aliás, era uma das atividades prediletas da dupla! Era como um campeonato entre os dois: quem conseguia fazer pilhéria do outro mais vezes no mesmo dia voltaria para casa sentindo-se o campeão, e já na cama imaginava novas brincadeiras para encabular o outro no dia seguinte. Dispensável dizer que, nos dias de visita da prima de Renam, Zé Carlos acumulava vitórias seguidas, para seu grande júbilo e amargura do companheiro.
Mas Zé Carlos também tinha seu calcanhar de Aquiles! Seus pais eram muito severos, e não raro o repreendiam na rua, na frente de todos. Também não era afeito aos estudos, e sempre entrava em férias escolares depois dos outros, por conta de ficar em recuperação. Ao longo do ano, muitas vezes também não podia brincar para ter aulas particulares com Dona Mirthes, uma velha muito gorda de voz fina da qual Zé Carlos morria de vergonha de ter como professora. Enfim, tais fatos davam a Renam bom viés para diversos chistes, valendo-lhe por várias vezes o campeonato do dia.
Aguardava então Renam, à modesta sombra da jovem laranjeira, a chegada do amigo. Ardia de ansiedade, mil galhofas prontas a serem despejadas sobre seu rival. Acontece que, no dia anterior, já de noitinha, jogavam bola os dois, com outros meninos da rua, quando em tentativa de fazer gol, Zé Carlos desferiu forte chute que sobrevoou o muro da casa de seu Matias, quebrando-lhe um grande – e supostamente caro – vidro de uma de suas janelas. O proprietário, pessoa de pouca simpatia e ainda cheio de razão pelo prejuízo sofrido, foi de imediato à casa de Zé Carlos, próxima uns cinqüenta metros dali, apresentar o problema e a conta aos pais do menino. Não bastasse tal fato, naquela hora deveria estar Zé Carlos em casa de Dona Mirthes, tomando aulas de matemática. A mãe do cabulante veio cuspindo marimbondos, aplicando ainda na rua dois tapas no traseiro do garoto, levando-o pelas orelhas para dentro de casa. Vai ver quando seu pai chegar - disse ela várias vezes -, hoje você verá o que é bom pra tosse!
Inicialmente em risos contidos, toda a trupe passou a gargalhar quando os dois adentraram em casa. “Perna de pau dá nisso”, falou um dos meninos. “Bom pra tosse? Ele vai tomar surra ou xarope?”, brincou um outro. Renam ria de tudo, e desde já engendrava as troças mais diversas para aplicá-las no dia seguinte. “Agora vem o troco”, pensou ele, que uma semana antes foi humilhado pelo amigo por conta de uns escritos surgidos no tronco de uma árvore, na rua de trás: Claudia e Renam, envoltos numa linha em forma de coração. Já se dizia há tempos que Cláudia, menina de catorze anos, moradora do bairro, andava de amores pelo menino, que de sua parte amava apenas sua bicicleta. “Pra quando é o casamento? Quero ser padrinho”, disse inúmeras vezes Zé Carlos, fazendo corar o pretendido. Agora era a vez da desforra, e do título!
Já ia Renam chamar novamente por Zé Carlos, quando ouviu abrir o portão da sua casa. Num pulo se pôs de pé e atravessou a rua, já engatilhando o primeiro dos gracejos que elaborou e ordenou em fila de prioridade. Sai então Zé Carlos, banhado e de cabelo penteado, olhos vermelhos de longo choro, face e braços marcados de roxo. Renam freia sua caminhada, e tudo o mais. O amigo não lhe olha, apenas fecha o portão e toma o caminho do fim da rua, onde a ausência de postes melhor propicia o empinar de pipas. Renam toma o seu lado.
- Sua linha está com cerol? Perguntou, ao que Zé Carlos apenas assentiu com a cabeça.
- Ah, tá...a minha também...
No céu azul de sol ardente o vento soprava a contento, e logo as pipas estavam no alto, coloridas e fagueiras, cortando o espaço com a perícia dos pássaros e desenhando com suas rabiolas figuras imateriais. Como é comum a tal atividade, e quem já experimentou o sabe muito bem, as horas passaram rápidas. O sol desceu do céu, com ele as pipas, e acabou-se a tarde.
No mais absoluto silêncio.