Legado
FABIO ALEX THEODORO DE MORAES
Tio, já não acha que é hora de me contar por que a gente vem no cemitério pra ver o túmulo do meu pai uma vez por mês?
Está certo, vou te contar, mas antes vamos pra casa, com um refrigerante eu conto. Sem ter como fugir por desse ato, ajeita-se no banquinho, enche seu copo pigarreia e começa:
Há muito tempo, dois meninos se conheceram no parque infantil, ambos com cinco anos (naquele tempo aprendia-se a escrever mais cedo que agora), um negro, filho de pedreiro e de uma lavadora de roupas e o outro um branco filho de ferroviário e de uma professora primária. Como a cidade era muito pequena com uma só escola, estavam na mesma classe, (embora fossem de classes sociais diferentes) e faziam de tudo juntos, as atividades de pintura, musicais etc.
Dividiam a merenda (mais o branco do que o outro), eram do mesmo time de futebol no recreio, aprendiam a somar e subtrair no mesmo ábaco. O negro tinha por nome João, como o santo das revelações, e o branco era chamado de Deque, diminutivo de Melquizedeque, coisa que com a idade que tinha na época era difícil de escrever e de falar. O pai de João sempre foi ausente, tanto que Deque fazia sua mãe desviar do caminho para passar na casa do amigo para também levá-lo. Dona Cora, mãe de João, ficava agradecida, e agradecia também os serviços que recebia da mãe de Deque.
Os meninos foram crescendo cada vez mais amigos, mas amigos únicos, pois não eram de nenhum dos outros garotos, não por eles, mas por parte dos pais dos garotos, (onde já se viu, um negrinho sempre grudado no branco, isso tá errado!).
Mas eles tinham um amigo imaginário, não me lembro do nome, mas era quase real. As palavras do tio desde o começo da história penetravam na mente de Rico como música. Ele fechava os olhos e vivenciava aquelas palavras, até que um badalar de sinos e espocar de rojões transportam Rico para uma estrada de terra, e abrindo os olhos espantados com aquela confusão de cheiros, cores e gritos, desvia-se de um bando de meninos correndo e gritando em sua direção, mas sem tempo de sair completamente do caminho deles, percebe que seu corpo é atravessado por pernas, mãos e lancheiras, nem mesmo a areia fere seus olhos. Ouve com clareza apenas seu nome: Rico, espera que já estamos chegando!, Ao se virar para ver quem falava, deparou-se com João e Deque sorridentes a abraçá-lo e dar tapinhas em suas costas, e sentia isso, o contato com os dois meninos, diferente do bando que atravessou seu corpo, ele podia senti-los.
_ Acho que Chico, Bingo, alguma coisa assim o nome do amiginho, mas não vem ao caso, era um parceiro para brincadeiras inocentes, juiz de jogo de betes, gude e coisinhas assim...
Rico, não mais ouvia a história que seu tio contava, ele a vivenciava como o amigo que só os dois viam, Corria com eles em volta do quarteirão, ia atrás das pipas, participava com o coração da amizade dos dois, e a viu crescer cada vez mais. Assistiu de perto cada surra que João tomava de seu pai. Deque nada falava, mas sofria como amigo, apenas confessava a Rico, que se pudesse, faria de João o seu irmão no papel. Por quase dez anos passaram os dias juntos, mas logo vem o lugar comum em amizades, a separação. Separação traumática, pois foi por obra de uma tragédia que João e Deque foram ter cada um com seu lado da vida.
Um domingo de futebol, um time com dois goleiros, Deque e Rico, e com o João de centroavante, foi interrompido pela mãe de Deque. Chorando, gritava por seu filho, por João e pelo marido, que morto na madrugada em um descarrilamento não mais retornaria para casa. Os três foram de encontro a ela, apenas dois a abraçaram, Rico ficou parado assistindo a cena que marcou a vida deles. João com quinze anos saiu da escola porque o pai precisava de mais dinheiro e passou a levar João como seu ajudante. Deque e sua mãe mudaram-se para outra cidade.
Está prestando atenção? Só contarei esta história uma vez, onde parei mesmo? Ah, lembrei, Deque vai a trabalho para a capital, cinco anos após a mudança, já trabalhava com o tio no escritório de contabilidade e vez ou outra visitava a cidade grande. Nessa viagem, aconteceu uma coisa estranha, passando em frente a um hotel do centro da cidade, ouve um grunhido, para, vira-se e vê no sopé da escada suja do velho hotel, um negro imundo, desdentado, olhos vermelhos e injetados, inchado pelo álcool, porém no fundo dos olhos dessa criatura entorpecida, ele consegue enxergar o menino de doze anos atrás.
JOÃO! grita e vai ao encontro dele, um abraço e o choro de ambos, um mais com o coração e o outro mais pela embriaguês, e encostado em um pilar ao lado deles, Rico também enxuga suas lágrimas. Pela sua visão passam-se os fatos narrados pelo tio, Rico vê quando João vai ao velório dos pais, quando sai de casa para ir atrás do irmão mais velho, o Geremias, que matou uma tal de Consuelo, é quando se perde na cidade grande aceitando ajuda de estranhos que lhes mostram o álcool como consolo. Viu todo o tempo de João vivendo entre prostitutas e viciados, até o momento em que o destino une novamente os dois amigos e mostra a João um novo caminho. Rico agora já não consegue ouvir mais nada, apenas vê os fatos como que através de um papel celofane, mas percebe a ajuda que João recebe de Deque e que conserta sua vida errada, passa a trabalhar com ele no escritório, volta aos estudos, aluga um pequeno quarto, e torna-se um cidadão. Rico contente com isso passa a seguir Deque de perto, e o vê correr para casa pegar sua esposa grávida e levá-la ao hospital, e após interná-la passa em uma floricultura e compra calêndulas para enfeitar o quarto, mas no meio do caminho luzes coloridas trazem o menino de volta à varanda, assustado, pede para o tio terminar a história.
_ Meu querido, a vida tem surpresas, e numa noite depois de anos, Deque sai a procura de João, e passa a frequentar os lugares perto do hotel onde o reencontrou, e o acha em um boteco decadente e novamente vai em seu auxílio. Puxa-o pela camisa e o repreende pela recaída, outro bêbado ao lado acha que João está apanhando e pega uma faca do balcão e atinge Deque por várias vezes.
Essa morte foi a última tragédia que vivi, por isso pelo “mea-culpa” abandonei de vez o vício e prometi pela alma de Deque, seu pai, que cuidaria de você pois ele pôs a minha vida nos eixos e por mim perdeu a dele. Por isso vou todo o mês ao cemitério, essa é minha dívida. Rico o interrompe e diz com lágrimas: Da próxima vez, podemos levar calêndulas?