A Mosca Gigante
BRUNO AYRES
Sempre àquela hora, a Mosca Gigante chegava junto às outras moscas, bem em cima do monte fresco da manhã, e dizia com seu alto zumbido: “Deem o fora, suas varejeiras! Não quero saber de ninguém em cima do meu monte”. Ela amedrontava pelo seu tamanho descomunal, pois media e pesava o equivalente a umas três das moscas comuns. Por alguma razão ela tinha saído bem maior e por isso ninguém ousava discutir. E todos os dias ela se apossava do alimento de todo o grupo.
As moscas tomavam as decisões de forma democrática e todas se alimentavam com partes iguais do mesmo alimento. Elas sabiam que uma dependia da outra para continuar sobrevivendo e quando a Mosca Gigante aparecia para expulsá-las, todas saíam resignadamente para que a ordem prevalecesse. A Gigante sabia muito bem disso e se aproveitava dessa organização. Quando se tratava da Mosca Gigante não havia essa história de democracia e nem direitos iguais, ela via o alimento e mesmo sabendo que não dava conta de comer tudo, fazia questão de que ninguém mais sequer olhasse.
Certa vez, as moscas se preparavam para o habitual desjejum em um dos montes mais frescos que despontavam todas as manhãs. E antes que qualquer uma tocasse a refeição, a Mosca Gigante chegou e as mandou para bem longe dali. Ela ficou com todo o bolo e sabia que dali para frente seria mesmo só dela, afinal quem é que se sujeita a ficar com os restos de uma mosca? Todas as moscas já haviam se retirado, mas a Gigante notou uma delas ainda ali, a mais jovem, rindo baixinho. “Como pode”, pensou ela. “Acabo de afugentar essas nojentas e me aparece uma rindo?”. Louca da vida, a Mosca Gigante, sentindo sua autoridade comprometida, bradou a todo pulmão: “Qual a graça, mosquinha podre?”. A pequena mosca engoliu o riso e de seus muitos olhinhos brotaram lágrimas, em um instante outra mosca veio em seu auxílio, só para afastá-la. A Mosca Gigante respirou aliviada, sua autoridade permanecia intacta.
E então, mesmo com todo bolo só para ela e nenhuma outra mosca à vista, a Mosca Gigante não pôde conter um sentimento de inquietação. Ela não conseguia parar de pensar na mosquinha que havia rido. Encafifada, ela se perguntou se era possível que estivessem perdendo o medo. No fundo ela sabia que se as moscas se unissem e resolvessem desbancá-la ela provavelmente sucumbiria, e temia esse dia mais que qualquer outra coisa. Foi então que ela achou ser a hora de fazer algo para que seu poder nunca acabasse, não podia tolerar alguém que ousasse zumbir sem sua permissão. Pretendia encontrar a pequena mosca e, na frente de todas as outras, assassiná-la da forma mais terrível que lhe ocorresse no momento.
Furiosa, ela percorreu as redondezas, mas estava muito difícil encontrar uma mosca. E isso lhe causou grande estranheza. Ela nunca tinha saído daquele corredor onde tinham comida fresca todos os dias e achava que as outras também não. Mas dessa vez ela teve que ir além dos horizontes que conhecia. Passou um bom tempo tentando atravessar uma vidraça. Como moscas não sabem o que é vidro ela ficou lá batendo a cabeça contra uma parede invisível. Depois de algum tempo alguém abriu a janela e ela passou para o outro lado. Sua busca continuou dentro da casa e aos poucos ela foi ouvindo, cada vez mais alto, o som de zumbidos. Era uma festa? Depois de muito raciocinar ela concluiu ser mesmo uma festa, uma festa de moscas! Ela foi seguindo o som e se deparou com o que conhecemos por cozinha. Em cima da mesa todas as moscas voavam animadamente de um lado para o outro, cantando velhas canções, bebendo, comendo, rindo e comendo mais ainda. Comiam o que existia de melhor (para moscas, é claro). Havia frutas na fruteira, migalhas na toalha, pedaços de queijo, suco e muito mais. De vez em quando uma mão abanava, e um ‘flit‘ inconveniente era borrifado sobre elas, mas elas nem ligavam. Era tudo muito divertido e, convenhamos, quem é estúpido a ponto de jogar veneno de verdade em cima da mesa da cozinha? Tudo era motivo de riso!
A Mosca Gigante sentia-se pequenininha dessa vez e não podia acreditar quão burra ela tinha sido por todo esse tempo. Sua ganância a isolou de todo o grupo, e achando que tomava para si sempre o melhor, acabou ficando com o que tinha de pior. Agora sem amigas, sem sua autoridade e sem seu sentimento de poder, conheceu o lado mais sombrio de sua pequena vida de inseto. Sem ânimo ela se entregou às horas. Não deixou rolar nenhuma lágrima, mas sentiu-se invadida por uma profunda tristeza. Tudo que ela teve até então, pensou, foram apenas ilusões.
No outro dia, todas as moscas seguiram para o costumeiro monte, a fim de despistar a Mosca Gigante, mas após algum tempo sentiram sua falta. O que havia acontecido com aquele baita moscão? A mosquinha, aquela que tinha rido, sentiu-se preocupada. Ela era boa, não tinha um pingo de maldade em seu jovem coração, e quando todas foram se banquetear ela partiu em busca de sua antagonista. Achou a Mosca Gigante jogada num canto, muito abatida. Receosa, ela se aproximou e perguntou baixinho: “O que você faz aí? Não vai comer?”. A Mosca Gigante olhou para a pequena mosca e num primeiro momento sentiu ódio, pois a culpa de sua frustração parecia ser da pequena mosquinha, mas então ela entendeu que não havia como negar a verdade. Tentando parecer mais firme ela disse: “Não. Estou sem fome hoje”. E a pequena insistiu: “Não fique assim, você sempre foi a mosca mais valente de todas”. A Mosca Gigante refletiu sobre o que queria dizer valente. Ela nunca tinha pensado dessa forma, e percebeu que nunca tinha sido realmente valente, ao invés disso tinha usado sua força apenas para prejudicar as outras e tomar para si o que deveria ser de todas. A pequenina continuou: “E não fique chateada, você é grande e forte, poderia muito bem proteger o nosso bando”. A Mosca Gigante não entendia o porquê daquela jovem querer tanto lhe ajudar, mas sentiu que uma onda de calor invadia seu peito e de repente uma lágrima rolou. A primeira de toda sua vida. E a pequena também chorou, pois havia encontrado uma amiga dentro daquela moscona.
Assim, a Mosca Gigante, junto com sua nova amiga, foi festejar um novo dia e comer, beber e dançar por horas. Pois todos sabem que moscas vivem muito pouco e o importante para elas é viver cada momento de suas vidinhas curtas. Um dia depois, já idosa, a Mosca Gigante ensinava suas netas que para quem quer viver não existe tempo para brigas, intrigas e mesquinhez. Tudo deve ser de todos e todos devem viver como um só.