SOB O CÉU DE MERCÚRIO
LICURGO SOARES DE LACERDA FILHO

Sou columbófilo, minhas únicas companhias eram meus pombos-correio. Apreciava soltá-los pela manhã e à tarde, para vê-los livres no ar.
Mercúrio é o mais especial dentre todos. Impõe-se por seu temperamento inquieto, por sua altivez de líder. É sempre o primeiro a sair e o último a entrar.
Nossa mudança começou em meio às ventanias de uma manhã de domingo, em setembro, há um ano.
Soltei-os cedo, para aproveitarem o frescor matutino.
Passadas duas horas, e eis que eles voltaram. Todavia, Mercúrio não voltou com o grupo.
Quando já me sentia angustiado, temendo o pior; vi-o retornando em voo ligeiro. Desenhou um círculo concêntrico no ar, e pousou sobre um suporte. Como sempre fazia, arrulhou com vigor, girou o corpo irrequietamente, baixando-se e levantando-se, como se estivesse a contar-me sobre suas andanças.
Foi quando notei uma fita branca amarrada em sua pata. Segurei-o cuidadosamente, e retirei-a. Nela estava escrito:
“Seu pombo é muito educado e gentil”
Fiquei estupefato! Como poderia ser? Como conseguiram pegá-lo?
O episódio me intrigou; porém, durante a semana nenhuma novidade sobreveio.
No domingo seguinte, Mercúrio se atrasou novamente; e, quando pousou, lá estava outra fita:
“Gostaria de saber o nome dele, para tratá-lo como merece”.
Confesso que me senti enciumado. Como era possível que ele se deixasse capturar duas vezes? Como alguém ousava intrometer-se em nossas vidas, sem que fosse convidado?
Passei a semana matutando sobre o que deveria fazer. Até que decidi responder o bilhete. Instalei um tubo em sua pata direita, no qual coloquei um papel, escrevendo:
“O nome dele é Mercúrio, e o seu?”
Quando soltei o bando, era uma manhã irradiando luz. Ansiosamente, aguardei o tempo passar.
A resposta veio:
“Um nome bem sugestivo: o mensageiro dos deuses. Digno de nosso fiel companheiro”.
E encerrava:
“Chame-me apenas por ‘Alguém’”.
Alegria e decepção se apoderaram. Queira saber mais. Quem era? Como conseguira pegar Mercúrio?
Empolgado diante da experiência inesperada. Sentindo-me diferente, depois de tantos anos de hábitos previsíveis; mal pude esperar o domingo seguinte para escrever:
“Obrigado pelas referências a Mercúrio, ele é especial. Gostaria de saber quem você é, como se chama. Mande-me seu endereço ou escreva um e-mail.”
A desilusão foi a resposta que obtive. O tubo voltou vazio. Atormentado pela dúvida, concluí que havia me precipitado.
A semana passou arrastada. Na madrugada do domingo, pouco antes do sol nascer, ávido por reatar o contato, escrevi-lhe uma única palavra:
“Desculpe”.
A resposta também foi lacônica:
“Está desculpado”.
Bem... Havíamos reatado nossa ‘conversa’.
A partir do domingo seguinte, nossas cartas se tornaram mais longas e mais intimistas. Nomeei-me por ‘Outro Alguém’. Escrevia, contando-lhe sobre mim. Alguém me respondia com cuidado e carinho.
As asas vigorosas de Mercúrio mudaram minha vida de forma poderosa, e os voos de domingo trouxeram um novo significado para minha existência. Era impressionante ver o pequenino se prestando a um serviço tão incomum. Voltava arrulhando alto, anunciando o êxito de sua missão, oferecendo-me a pata.
De repente, tudo mudou.
A ausência de respostas, em um domingo do inverno seguinte, deixou-me preocupado. O papel nem fora retirado do tubo. Estava lá, intocado.
O silêncio se repetiu na semana seguinte; bem como, na outra e na outra. Angustiei-me. O que poderia fazer diante de tal situação? Como saber o que acontecera com Alguém?
O comportamento de Mercúrio mudara. Estava entristecido; retraído. Era como se estivesse incompleto.
O tempo passou e as respostas não vieram. O inverno se tornou silencioso e amargo. Tomei uma decisão: tiraria o tubo de sua pata, libertando-nos da lembrança que ele nos impunha.
Antes, porém, soltei-os. Decidi ocupar meu tempo limpando o pombal.
A surpresa veio quando o grupo retornou, Mercúrio havia ficado para trás.
Quando voltou, trazia-me notícias. Com o coração aos saltos, segurei-o. No papel, escrito com outra letra, havia um endereço.
Não tive dúvidas, afoito, peguei o carro e fui ao local. Encontrei uma casa modesta.
Uma senhora grisalha me atendeu. Nem lhe dei tempo para falar:
- Sou Outro Alguém – disse-lhe.
Ela me olhou surpresa, sorriu-me, convidando-me para entrar.
- Então a senhora é Alguém?
- Não, não sou eu – respondeu-me.
- Mas, então...
- Alguém era minha filha, Anabella.
- Era...
- Venha cá – tomou-me pela mão, levando-me ao fundo da casa.
- Foi ali que Anabella conheceu o pequenino Mercúrio – disse-me, apontando para a sombra rala de uma romãzeira, em um vasto quintal.
- Aos domingos eu a ajudava a sentar-se ali, para tomar um pouco de sol. Quando Mercúrio passava, ela conversava com ele, elogiando-o. Surpreendentemente, um dia o pássaro desceu, pousou no braço de sua cadeira de rodas, e se deixou acariciar. De imediato ela me pediu uma fita, e lhe escreveu o primeiro bilhete.
- Mas, onde ela está?
- Ela partiu no começo do inverno.
- Como assim, partiu?
- Minha Anabella morreu...
O impacto da revelação me fez escorar em uma mesa.
- O que aconteceu?
Atenciosamente, a senhora me contou que sua filha sempre fora uma mulher cativante e vivaz; cercada por amigos, encantadora. Foi então que lhe surgiu uma doença implacável, que lhe roubou a saúde e a beleza. Assustados com os efeitos em seu corpo, seus amigos a abandonaram. O último a afastar-se foi seu namorado.
Com pouco tempo de vida lhe restando, ela se isolou em seu quarto, esperando pelo fim. Até que conheceu Mercúrio, e, através dele, a mim. Esperançosa, a vida retornou aos seus olhos. Passou a sentir-se útil, e não uma inválida. Revelou-se novamente feliz.
Contudo, aproximando-se o inverno, a doença lhe acossou novamente; desta vez, de maneira inclemente. Antes de partir, ela fez a mãe prometer-lhe que me contataria.
O difícil foi cativar a confiança de Mercúrio, para colocar o endereço no tubo.
Ao despedir-nos, ela me deu uma foto de Anabella. Um sorriso largo e generoso.
Sai dali com o coração apertado. Conquistara e perdera uma amiga, sem nunca tê-la conhecido pessoalmente.
Na tarde daquele dia retirei o tubo. Abri o pombal para que todos voassem. Mercúrio ficou para trás, vendo seus companheiros a distância. Depois, alçou voo e ficou circundando o terraço, inúmeras vezes, como se estivesse expressando sua perda e sua dor.
Nós dois ficamos ali, aturdidos, vendo a noite sufocar o dia, incapazes de mudar o que nos acontecera.


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