O ROCK AND ROLL NÃO É UMA DROGA
ORLANDO BARBOSA RODRIGUES
Meu nome é Tê. Na verdade, Maria Tereza de Jesus, segundo consta na minha certidão de nascimento. Detesto esse nome. Ele não tem nada a ver comigo. É muito santificado para mim. Prefiro ser chamada simplesmente de Tê. Tê, de tesão, paixão, fogo. Tê de todos os prazeres imagináveis, possíveis ou impossíveis, proibidos ou não.
Não sei o que minha mãe tinha na cabeça quando me deu esse nome. É o nome na certidão. O único documento que tenho. Minha mãe guarda bem escondido. Esconde para eu não pegar e rasgar ou jogar fora ou perder em alguma boca qualquer.
Assim aconteceu de outras vezes. Perdi tudo na boca. Dinheiro, documentos e roupas. Perdi até a virgindade, mas isso eu conto depois. Na boca conheci muita gente. Gente muito doida, como eu. Ou até mais doida ainda. Gente rica, gente pobre. Gente rica que pobre fica. E fica pobre porque está na boca. Na boca, tem gente que até nasce. Na boca, muita gente morre.
Morre de sono, frio e sede. Morre de inanição, morre por inalação; morre dormindo, morre deitado; simplesmente morre. Mas, na boca, também se mata. Mata-se o tempo. Mata-se a fome, cheirando ou fumando. Mata-se até inalando ou injetando. Mata o amigo, o inimigo. Mata-se o pai, a mãe e o irmão.
Meu nome é Te. Assim meus amigos me chamam. Assim eles me conhecem. Assim todo mundo me conhece, na boca. Conhecem-me, assim, até na cadeia. Na cadeia já estive, mas nunca me bateram. Já me jogaram no chão, já me disseram palavrão. Tudo fora da cadeia. Na rua, perto da boca.
Nunca matei, mas já roubei. Comecei ainda menina, vagando pelas noites frias e sombrias das ruas do centro de São Paulo, no frio, e às vezes chuvoso, inverno paulistano.
Comecei roubando livros. Roubava e vendia. Não lia. Vendia o livro para financiar a droga que eu consumia. Um dia desses vi numa livraria um livro com o título “A menina que roubava livros”. Achei que falassem de mim. Que nada. Era apenas mais um livro.
Fui parar na FEBEM. Já tem tempo. Mais de quinze. Na época nem treze eu tinha. Meu pai e minha mãe me largaram lá. Iam me reeducar. Diziam meus pais. Bobagem. Reeducar quem, se nem educada fui? Meus pais me apresentaram a rua. Deram-me a liberdade de conhecê-la. Na rua, conheci a boca. Na rua conheci o rock and roll.
O rock and roll passou a ser muito mais que música para os meus ouvidos. O rock and roll era meu estilo de vida, minha razão de viver. O rock and roll me vestia, me alimentava, me embriagava. O rock and roll ficou impregnado em mim. No meu corpo, no meu sangue, nos meus cabelos loiros cacheados e sujos pelas noites passadas na rua, perto da boca.
O rock and roll me apresentou um mundo livre, sem desigualdades e sem hipocrisia. Um mundo rebelde é verdade. Uma rebeldia pela paz e pelo amor. Amor sem limites. Amor sem pudor. Amor com sexo e sexo sem amor. Com o rock and roll eu deixei de roubar. Passei a trocar o que eu ainda tinha, por aquilo que eu queria. A boca e o rock and roll.
Aí eu conheci o sexo. E minha virgindade foi embora com ele. Mas, o sexo era bom, com ou sem tesão. Trocava o sexo por tudo o que eu queria. Ganhava presentes, roupas, perfumes e tudo o que eu pedia. Prostituía. Pedia, ganhava e perdia. Perdia na boca.
Um dia conheci um cara. Ele era muito bonito, educado e andava bem vestido. Gostava de rock and roll. Mas gostava de rock and roll de um jeito diferente. Ele não gostava da boca. Para ele rock and roll não tinha nada a ver com a boca. Tinha tudo a ver com liberdade. E a liberdade não estava na boca. Que boca? Ele dizia. Por que esse nome? Ele perguntava. Boca de fumo, ora. Eu dizia. Boca de fumo, droga. Eu falava.
A gente ficou amigo. Ele até fez sexo comigo. Ele me deu presentes, ele me deu carinho. Ele brigava comigo. Brigava porque eu sumia. Brigava porque eu fugia. Brigava porque eu ia para a boca. Mas era meu amigo. Nunca me bateu, nunca me jogou no chão, me empurrou ou me falou palavrão. Nunca me deixou na rua. A rua é que veio me buscar.
De novo na rua, perdi meu amigo. Ele foi embora, sumiu, nem sei. Pra rua voltei e revi outros amigos. Alguns poucos amigos da rua. Amigos da onça, minha mãe dizia. Alguns poucos e falsos amigos da boca. Senti. Muitos também haviam sumido. Muitos foram embora; fumando, inalando, cheirando, dormindo.
Percebi mais tarde o quanto aquele meu amigo que gostava de rock and roll, de um jeito diferente, estava certo. Aquilo que eu gostava, e que me matava, era outra coisa sem ser rock and roll. O que eu gostava era droga. Rock and roll não é uma droga. Aprendi.
Preciso tirar minha carteira de identidade. Só tenho minha certidão de nascimento. Ela está com minha mãe. Minha mãe a escondeu de mim.