AMIZADE EM UM DIA SURPREENDENTE
MARCOS ANTONIO QUEZADO RIBEIRO

Ao amanhecer um dia comum, acordei-me atordoado, meio perdido. Era um dia chamado “daqueles”. Tomei café na mesma medida de sempre, mas parecia sem gosto, amargo, ruim. Não quis comer nada. Ao acordar, havia pisado com o pé esquerdo no chão. “Ah, nunca fui supersticioso”, afirmei. Segui o dia. Peguei o metrô, dirigia-me ao trabalho. Mais um dia, pensava. E fui.
Na primeira estação, uma pane no trem me obrigou a saltar. Como o trabalho era próximo, resolvi não esperar por outro vagão. Decidi caminhar até o trabalho. Estava um dia lindo. Chovera por toda a noite e o dia estava exuberante e claro, escaldando luminosamente as poças d’água que restavam. Segui caminhando, apenas pensando na paisagem. De repente, um carro em alta velocidade projeta toda a poça de lama do canto da rua sobre mim. Lá estava eu, molhado, sujo, sem condições de seguir ao trabalho que ficava logo ali, a umas cinco quadras.
Sentei-me ao meio-fio. Ali mesmo, com toda aquela lama. Permaneci parado por longos minutos, com a mente vazia. De repente, pensei: “Hoje não é o meu dia. E agora, o que vou fazer?”. Estava irreconhecível! Encontrava-me amargurado, não sei com o quê. Não sou de lamentar, mas me encontrava um pessimista nato. E o dia estava apenas começando.
Passivo, aguardei o próximo acontecimento. Reneguei, naquele instante, ser o ator dos meus atos. Esperei a próxima cena e ela veio. Uma gritaria teve início ao longo da rua. Estava no Centro de São Paulo, um pouco além da Estação São Bento e a poucos metros da movimentada Rua 25 de Março. Dos gritos, percebi a correria. “É o rapa”, em alto e bom som, era o que bradavam os vendedores ambulantes em correria. Levantei-me e corri em busca de me proteger daquela multidão desnorteada. Entrei numa lojinha de R$ 1,99. E aguardei o próximo ato.
Uma avalanche de policiais invade toda a rua. Entram na lojinha em que me encontro. Um dos policiais grita: “É ele!”. Fechei os olhos e disse: “Meu Deus! Estará ele se referindo a mim?”. Tudo escureceu à minha frente. Uma sucessão de cenas típicas de um pesadelo invadiu minha mente. Fui imobilizado e algemado. Um mundo de fardas me sufocava. Fui posto num camburão da polícia. Acho que gritava e dizia “não sou eu”, mas naquela confusão, quem daria ouvidos a um sujo e perdido sujeito. Quando me dei conta, estava numa delegacia de polícia e alguém me avisava que o Delegado logo falaria comigo. Meu Deus, aquilo era puro terror!
Não sei se eu estava chorando. Não sei quais sentimentos me invadiam naquele momento. Certamente, todos eles, resumidos em um só: medo! Muito medo! Encontrava-me perdido naquele enredo. Não sabia como reagir àquela tempestade. Restava-me rezar. Não olhei o que me rodeava. Acredito que era medo de conhecer uma vizinhança hostil. Permaneci parado.
Muito tempo depois, um policial abre a cela e me põe de pé. Leva-me a uma sala. Senta-me numa cadeira em frente a uma mesa onde há outra cadeira do outro lado. Continuo algemado, devem acreditar que sou um meliante de alta periculosidade, sentenciei. Encontrava-me bem sentado, esbelto na cadeira, mas com os olhos fechados. Continuava o medo em apropriar aquela realidade como factual. De repente, escuto uma gargalhada nervosa, seguida de uma voz tosca e autoritária que registrava que os policiais haviam se enganado. Alguém dizia que não era eu o alvo. Senti um alívio enorme naquele instante. Aquela voz, brava, nervosa e que ao mesmo tempo parecia estar vivendo uma cena de surpresa, não me era estranha. A voz ofegante de raiva sobre os policiais se aproximava de mim. Ouço: “Olá, Dr. João Erthal. Há quanto tempo, caro amigo!”.
Meu coração bateu à boca. Era aquela uma voz que habitou bons momentos da minha adolescência. Era um “nissei invocado”, assim o chamava. Um amigo, quase cunhado, dos longos 13 aos 21 anos das minhas loucas aventuras e sonhos de juventude. Do colégio São Pedro. Da Rua da Aurora. Dos namoros no portão da casa dele. Era o Kazuoca. Hélio Kazuoca. Lembro de todos da sua família. Uma doce família de imigrantes japoneses. Lembro mais ainda de Ana. Ana Kazuoca, minha amada Ana. Mas, eles foram embora para o Japão. Não pode ser!
Recebi um abraço apertado. Um longo abraço, seguido de um beijo na face. Um calor amigo. A voz fica mais serena. O amigo me retira as algemas. Começo a retornar. Já me dou conta do cenário. A realidade já não me assusta mais. Tomei-me de coragem e abro os olhos. É o Hélio, sim! Meu amigo Hélio. Que coisa boa! Correm lágrimas do meu rosto e ponho-me a sorrir nervosamente. Estou trêmulo a abraçá-lo. Meu amigo Hélio!
Após muitos copos d’água com açúcar, já se vão longas horas desse dia inusitado. Quando finalmente respiro e sinto o chão sob meus pés, estou numa sala aconchegante, sentado num confortável sofá. Ouço de forma amiga meu nome: “João, há quanto tempo? Como estão todos? Como vai a família? Você casou? Tem filhos?”. Respirei fundo. Olhei para o Hélio e abri um sorriso: “Quem bom, Hélio, realmente é você!”.
Eu já contava os meus 32 anos. Há 11 anos não via o Hélio. Não me casei e não tinha filhos. O Hélio era o Delegado da 21ª DP. Voltaram do Japão menos de dois anos após aquela despedida e não mais nos encontramos. O Hélio era o amigo, quase o irmão que eu não tinha. Era meu companheiro de farras, de sonhos. Meu confidente dos arroubos da juventude. Assim, também, ele me considerava. Aquele reencontro, para mim, já seria improvável. Lá estava eu e meu grande amigo Hélio. Era o Hélio, aquele que em meus sonhos seria o cunhado perfeito.
Aquele louco dia havia me dado um belíssimo presente: o retorno de um grande amigo. Conversamos por horas. Descobri que Ana, minha sonhada Ana, continuava solteira. É professora de Antropologia da USP. Foi uma longa e deliciosa noite de recordações e descobertas. Percorremos nossa juventude e relatamos nossas vidas nos últimos anos.
A vida é surpreendente mesmo! Um dia tortuoso - marcado por acontecimentos “dantescos” - mudou a minha vida. Meu eterno amigo Hélio estava aqui, ao meu convívio. E, novamente, pude me aproximar de Ana e retomar meus sonhos de adolescência.
Daquele dia, já se vão 12 anos. Sou um reconhecido advogado de um grande banco público brasileiro. Adoro meu trabalho. Sou um homem feliz. Sou pai de João Filho e Luíse, meus lindos filhos. Minha mulher, Ana Kazuoca, por uma dessas grandes coincidências da vida, também é irmã do meu melhor amigo, Sr. Hélio Kazuoca. E que dia! E que vida!


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