Até que a vida nos separe
JULIO MARIA GONZAGA
Eu acho que todo o mundo devia nascer e viver numa cidade do interior, pelo menos, até os 15 anos. Ali, sim, é que é vida. As verdadeiras amizades nascem da proximidade, da convivência, das brincadeiras do dia-a-dia e da liberdade que só um lugar assim pode proporcionar.
E, vejam vocês, depois de mais de vinte anos, aqui estou: frente a frente com o meu melhor amigo de todos os tempos: o Ruy. Desde que me entendo por gente fomos inseparáveis. Onde um estava o outro não tardava a chegar. Éramos tão unidos que alguns comentários maliciosos surgiam invariavelmente nas rodas que se formavam na praça todas as noites. Uns falavam que éramos irmãos, que meu pai havia pulado a cerca em alguma noite daquelas em que saia de casa dizendo para minha mãe que ia armar uma espera para caçar pacas. Acho que minha mãe não acreditava nessa conversa, mas não ligava nem um pouco. Também pudera, depois de quatorze gestações era natural que não se importasse mais com essas coisas.
O Ruy era filho da diretora do colégio e eu filho do farmacêutico, o único na cidade.
Meu pai era uma espécie de médico sem CRM. Tinha pouca instrução, é verdade, mas era homem de largo conhecimento prático e tinha também um imenso coração. Curava muitos doentes apenas como sua conversa de bom conselheiro e algumas doses de xaropes que ele mesmo preparava.
Mas, esta é outra história.
No dia em que me encontrei com o Ruy, foi uma grande alegria. Eu estava caminhando tranqüilamente, como sempre fazia na volta do trabalho, quando, de repente, me apareceu aquele sorriso inconfundível, acenando e me chamando pelo apelido que só ele sabia.
Relembramos nossa infância e adolescência. Do tempo em que jogávamos futebol no time da cidade. O Ruy no meio de campo e eu centroavante, marcando os gols e fazendo a alegria da torcida.
Mas o tempo passou e nenhum de nós se tornou jogador profissional. Acho até que o nosso talento para futebol era proporcional ao tamanho da nossa cidade.
Quando estudávamos, estivemos sempre na mesma turma, sentados lado a lado na mesma carteira e disputando para ver quem tirava a melhor nota. Naquele tempo quando a professora fazia a chamada, todo aluno tinha que se levantar para responder o tradicional “presente”. Essa era a hora de descontar alguma dívida. Ir à forra. Vingar a namorada perdida para o outro.
Um levantava, o outro colocava o lápis embaixo. Numa dessas travessuras eu me dei mal. O Ruy ficou irritado e me agrediu com o lápis pontiagudo. Até hoje tenho a marca escura da grafite que penetrou profundamente na palma da minha mão. O sangue jorrou e fez com que a aula fosse suspensa. Coitado do Ruy, ficou uma semana de castigo.
Com a mão ensangüentada fui levado até a Farmácia do meu pai. Lá ele suturou o ferimento sempre utilizando o seu inseparável canivete. Com esse canivete, ele picava fumo para o cigarrinho de palha e descascava laranjas, aparava as unhas, cortava o cordão umbilical das crianças que vinham ao mundo por suas mãos e drenava furúnculos, com a mesma naturalidade e sem a menor cerimônia, como se estivesse utilizando o mais preciso instrumento cirúrgico. Depois limpava a lâmina na barra da calça, fechava o canivete e o pendurava na cintura.
Mas, esta também é outra história.
Voltemos, então, ao bar onde eu e o Ruy conversávamos animadamente sobre nossas peripécias juvenis. A conversa descambou para as promessas que, naquela época, fazíamos um ao outro e ninguém cumpria.
Mas, de repente, comecei a perceber que desde o nosso reencontro, horas antes, o Ruy evitava qualquer contato físico comigo. Não havíamos apertado as mãos, nenhum abraço e nada de tapinha nas costas. Tudo, no entanto, parecia natural até que me lembrei de um trágico acidente ocorrido alguns anos atrás, no qual o Ruy havia se envolvido.
Lembrei-me muito bem do dia em que recebi a notícia. Eu já havia me mudado da nossa cidade Natal em busca de estudos e trabalho. O Ruy ficara por lá e isso nos separou durante todo esse tempo. Quando perguntei sobre o acidente ele desconversou, falou de futebol e namoradas, seus assuntos preferidos.
Eu insisti no assunto do acidente, pois a notícia que me havia chegado à época, dava como certo que o Ruy havia falecido no acidente.
Essa lembrança me deixou de cabelos em pé. Um calafrio me percorreu o corpo inteiro. Tive tonturas, minha voz falhou e por pouco não caí da cadeira.
Olhei fixamente para o Ruy e pude perceber que ele estava pálido, seus olhos não brilhavam e em volta do seu corpo havia uma espécie de aura azulada e reluzente. Muito estranho.
Quando me recobrei um pouco do susto, perguntei:
– Mas Ruy, você não havia morrido naquele acidente?
Ele sorriu um sorriso amarelo e falou com uma voz gutural:
– É claro que morri, e é por isso que estou aqui.
Fiquei mais apavorado do que já estava.
Ele continuou...
– Você lembra do nosso trato?
– Que trato, Ruy? Você está louco? Quer me matar de susto?
– O nosso acordo, quando jogávamos futebol lá na nossa cidade?
– Ruy, isso faz tanto tempo, como posso me lembrar de algo que aconteceu há mais de vinte anos?
– Lembra que fizemos um acordo, depois daquela partida em que o nosso time venceu o jogo por 5 X 0? Você marcou os cinco gols, graças às bolas que lancei pra você dentro da área adversária.
– Lembro do jogo, mas não me lembro de nenhum acordo.
– Naquele dia cruzamos os dedos mindinhos e falamos: “quem morrer primeiro tem que voltar e dizer para o outro se no céu tem futebol”. Lembra?
Era verdade, tínhamos feito esse trato. Mas jamais pensei que aquela brincadeira de criança poderia ter conseqüências tão assombrosas.
– Tá bom, mas o que isso tem a ver com a nossa história? Disse-lhe sem querer ouvir a resposta.
– Pois, é. Vim pagar a promessa. Tenho duas notícias pra te dar.
– Vamos logo, desembucha.
– A primeira, e boa notícia, é que no céu tem futebol, sim.
– Que bom, pelo menos tem algo para preencher o seu dia, né? Brinquei meio sem graça...
– E a outra notícia? Conta logo, estou curioso.
– A outra é que você está escalado para o próximo jogo. No domingo que vem ...
Nesse momento um calor imenso tomou conta do meu corpo. O mundo todo girou e em me senti flutuando. Dei um pulo na cama e acordei.
Ufa! Graças a Deus! Tudo não passava de um pesadelo.
Depois desse dia e até hoje, mesmo depois de casado, só consigo dormir com a luz do quarto acesa. Minha esposa acha estranho, mas ela nem imagina as outras promessas que eu fiz com o Ruy.
Sei lá, vai que ele resolve aparecer para cobrar...