Dr. Cássio Rosa
CLEIDELI CARROGI
Para minha mãe Zoraide
A vovó Toninha não cansava de contar sobre o amigo médico. Sim, apesar de ter sido só uma parteira prática, teve amigo médico, bom e de princípios. Era homem de todas as letras maiúsculas.
Os netos adolescentes a circundavam no sofá e deitados no tapete esperavam pela repetição da história, de como ela havia salvado uma senhora e seu bebê apenas apelando para a amizade com o doutor.
Respirava fundo, tinha o cacoete de pigarrear nas ocasiões em que algo importante ia ser dito. E aí começava.
- Há 40 anos não se fazia cesariana a torto e direito, não. As mulheres aguentavam firmes, principalmente as mais pobres, a crueldade das dores do parto. Meu turno começava às 18h. Cheguei à enfermaria, e logo notei a senhora a espera de sua quarta criança. Experiente, resignava-se a aguardar a hora bendita. Nem reclamava. Foi internada com o início das dores pela manhã. As contrações foram ficando mais fortes à medida que as horas se sucediam. Não tinha médico especial para atendê-la.
Nesse instante, as meninas se encolhiam, imaginando as aflições daquela mãe. A avó prosseguia.
- Em algum instante, foi levada à sala de partos. Mas a coisa ali não estava certa. Eu olhava, analisava e a preocupação não se dissipava. A criança não podia nascer. Invertida que estava no ventre da mãe: a cabeça teria que estar à saída do útero, e o que se viam eram os pezinhos da menina. Eu tinha feito muito parto até ali, mas, mesmo com bastante experiência, me vi numa situação desesperadora: não podia continuar, não adiantava que a mãe se esforçasse. Havia a desconfiança de que o cordão umbilical pudesse enforcar o bebê, numa tentativa mais drástica de retirada. A gente também usava o fórceps na época, mas só quando a cabeça estava à vista. Ali, nem dava pra pensar nisso. A pressão da mãe caía na mesma proporção em que rolavam as enxurradas de suor do meu rosto. Desafortunadamente, eu era a responsável pelo procedimento.
Acomodou-se melhor na cadeira. Respirou.
- O tal do médico que deveria estar de plantão deixou o telefone da casa. E adivinhem? Ninguém atendia. O caso é que ele simplesmente não foi para o hospital na noite fatídica. Eles não fazem o juramento de Hipócrates? Eu que não fiz, ajudei muita gente, com Deus sempre no coração. Mas, vamos continuar... Eu sabia que um parto cesariana era essencial para que houvesse ao menos a sobrevivência da mãe. Não havia outro obstetra a chamar na cidade de Sorocaba. Ter telefone era verdadeiro luxo, médico que o atendesse era quase uma lenda. Ainda mais no meio da madrugada. Mas foi aí que eu me lembrei do Dr. Cássio. Homem de meia idade, sempre sorridente. Não era de convênio e nem atendia o hospital. Mesmo assim, como o caso era de vida ou morte, liguei e pedi que viesse pelo amor de Deus (eu estava quase chorando) e pela nossa amizade. Que ele me pedisse o que quisesse em retorno, eu fazia. Acordei a casa inteira, pedi desculpas, me explicava. Ouvi do outro lado que ele vinha, meia hora no máximo estaria lá. E foi mesmo. Lembro do sorriso já desmaiado da mãe, quando o viu entrar na sala. E fez a cesariana. E só saiu de lá quando tudo estava bem. No outro dia, foi ver como estavam as pacientes. Receitou medicamentos. Jamais cobrou por nada.
Os netos viram o rosto da avó se encharcar, de maneira que não acontecera antes. O maior orgulho de sua vida, pensou, a melhor coisa que fez foi ter o amigo, conhecido de outros hospitais. Por causa disso, ajudou a salvar duas vidas. Na verdade, foram três. Salvara também a sua, na madrugada fria de Junho, em 1968.
E não disse mais nada, porque as lágrimas a sufocavam.
Há uma semana, Dr. Cássio Rosa morria, sem que a amiga ou as duas pacientes que lhe deviam a vida pudessem lhe ter retribuído, por insignificante que fosse uma parte daquele gesto.