Irmãos de sangue
MAURICIO DE CARVALHO PRATES
Na comunidade, viam-no como um excêntrico. Filho único, viveu toda sua vida ao lado dos pais. Nunca se casou, não teve namoros sérios, nem cultivou amigos de verdade. Quando os pais morreram, mudou-se para o campo onde se isolou definitivamente do mundo.
Tinha aversão ao convívio social, porque, em seu julgamento, as pessoas sempre esperam que se faça algo por elas. Não estreitava seus laços sociais, para que ninguém tivesse a liberdade de lhe pedir favores: “as pessoas parecem não ter noção dos limites. Se permitirmos nos sugam até a última gota de sangue. É muito desagradável ter que dizer a alguém que ela não vai poder contar com nosso sangue. Porque aí te viram a cara. Esse escambo parece ser a base do convívio social. Prefiro me abster".
Certo dia, de frente ao espelho, ao fazer a barba, teve um instante de estranhamento com sua própria imagem. Viu um velho do outro lado. E no instante seguinte, quando, claro, teve que aceitar que aquele velho era ele, sentiu-se mesmo velho e solitário. Mas sem querer se entregar, levantou a cabeça e encarou o espelho: “pelo menos não devo nada a ninguém!”. Mal saíram de sua boca essas furiosas palavras, sentiu uma dolorosa pressão na fronte. Percebeu, então, que seu nariz sangrava. Assombrado, abriu depressa a torneira e lavou em água abundante todo o sangue. O sangramento parou, a dor passou, mas durante todo o dia, lhe voltou à cabeça o que ocorrera pela manhã.
Procurou um médico e submeteu-se a uma série de exames. Com os resultados em mãos, expressão grave, o jovem médico lhe deu o diagnóstico: “leucemia”. Sentiu-se como se abrissem seu cadafalso. Seu sangue estava virando água. Desde criança ouvia falar dessa doença mortal. A única cura possível era um transplante de medula, mas não haviam doadores compatíveis cadastrados. “O senhor tem parentes que possam fazer os testes?”, perguntou-lhe o doutor. “Sou sozinho neste mundo”, respondeu sem encará-lo. O médico recomendou-lhe então a quimioterapia para retardar o avanço da doença, enquanto procuravam por um doador, mas não pode lhe dar muitas esperanças.
Ao sair do consultório já havia se decidido a não tomar aquele veneno que só prolongaria seu martírio. Aceitaria a morte ou que a graça de Deus o tocasse com o surgimento de um doador compatível. Foi pra casa decidido a não mudar seus hábitos, até onde sua saúde lhe permitisse. Não conseguiu, entretanto, impedir seus pensamentos de remexerem questões que ele preferia deixar como estavam. De repente, viu-se questionando se estava mesmo certo em suas convicções, se o seu fim anunciava-se tão deprimente. Ia morrer sozinho sem ninguém pra segurar sua mão. Nesse instante, uma fresta abriu-se na couraça de seu coração e ele admitiu pra si mesmo, que daria tudo para ter se sentido acolhido nesse mundo hostil.
Quase um mês depois do diagnóstico, ligaram do consultório médico. Um doador compatível havia aparecido. Segundo o médico, ele havia se apresentado como um amigo que ouvira o boato na cidade e quis fazer os testes. Seu nome era Emanuel. “Ao escolher o instrumento de Sua graça, Deus foi bastante irônico comigo”, pensou ele recuperando-se do espanto. “Manu” foi seu melhor amigo na infância. Na verdade, o único que ele se permitiu ter em toda sua vida. Eles tinham suas diferenças, Manu era ousado, ele seguro. Mesmo assim, foram inseparáveis como dois lados de uma moeda, até o dia em que Manu foi atropelado por um caminhão. Ficou à beira da morte, mas, ao final de meses engessado do pescoço aos pés, recuperou-se. Porém, não por completo, aos doze anos ficou condenado a usar uma cadeira de rodas pelo resto de seus dias. Marcou-lhe profundamente, a primeira vez que Manu foi à sua casa, após o acidente. Chegou empurrado por seu irmão, porque ainda não conseguia se locomover com destreza na cadeira. O antes destemido amigo lhe pareceu então um bebê que necessitava de muitos cuidados. Chocou-lhe tanto, que deixou de ir à casa do amigo e se lhe procuravam em casa, mandava dizer que não estava. Pouco a pouco, Manu tornou-se para ele apenas um conhecido a quem cumprimentava a distância, com um gesto de mão, quando se viam na rua.
Ele aceitou, afinal, o transplante de medula, mesmo tendo consciência de como ficava seu papel ao receber a doação de quem tratara tão mal. Não iria recusá-la, não importava o preço que tivesse que pagar. Aliás, decidiu que assim que tudo estivesse terminado, procuraria Manu pra lhe pagar o favor.
O antigo amigo, entretanto, veio acertar as contas antes do que ele esperava. A cirurgia ocorrera conforme o planejado, restava-lhe apenas esperar que seu corpo assimilasse a transfusão. Ele ainda estava no quarto do hospital, pensando justamente em como lidaria com o antigo amigo dali em diante, quando ele o surpreendeu entrando pela porta do quarto. À sua frente, Manu, o encarou num silêncio insuportável:
Eu não sei o que você estava querendo com isso, depois de tantos anos...
Disse ele afinal, quebrando o silêncio. Manu não se incomodou com as palavras do velho amigo. Achou até graça em reconhecer naquele velho rabugento o amigo desconfiado e sistemático da infância:
Deixa de ser desconfiado. Você acha que ninguém faz nada pelo o outro sem querer algo em troca. O que você me diria, se tudo o que eu quisesse, fosse essa sensação boa de ter ajudado um amigo?
Ele olhou pro lado oposto, pra parede, envergonhado e emocionado pelo que lhe disse o antigo amigo. Parece que em seu caminho, Manu tinha aprendido muito mais do que ele recluso em seu castelo:
“Eu te diria pra não falar assim, pois não mereço sua consideração. Te dei as costas num dos piores momentos da sua vida, porque tive medo da responsabilidade de cuidar de você”.
Manu aproximou sua cadeira da cama e pôs a mão em seu ombro:
“Eu sei, eu também fiquei com medo e tive, a meu modo, meus momentos, por isso te entendo. Mas agora que o medo ficou pra trás, não precisamos deixar nossa amizade no passado, junto dos cacos daquele acidente, não é?
Sua vida esteve por um fio. O mundo parecia pesado demais pra se suportar e quando ele sentia que estava prestes a sucumbir e desaparecer esmagado, uma mão lhe foi estendida. Isso não podia ser medido em seus cálculos de perdas e ganhos. Isso ele não controlava e o fez sentir-se frágil. Compreendeu então que por medo de perder, perdia o que tinha a ganhar. Segurou forte a mão do amigo, como um náufrago se agarra a um bote, como o faminto à comida, como um miserável a um tesouro incalculável:
Muito obrigado