A MELHOR DE TODAS AS VIDAS
ALOISIO DOZZA DIAS
Engolíamos peixinho porque ensinava a nadar. Amávamos jabuticaba. Armávamos arapuca. Corríamos alucinados ao quintal para ver avião desenhando rastro no céu. Tomávamos banho de cachoeira, e o peso d’água nos derrubava. As mães se desesperando e nós gargalhando nossa felicidade nua. Jogamos futebol no campinho do bambuseiro, que não tinha gramado, só uma terra preta. E tome bronca em casa...
Fomos engenheiros: construíamos pipa, que se chamavam papagaio, com vareta de bambu que a gente mesmo cortava e afiava. Amarrávamos com linha surrupiada da caixa de costura da mãe. Papel de seda comprávamos no armazém do Barbeiro; colávamos com grude, uma cola feita de polvilho ou trigo; depois era soltar e catar em cima da árvore, onde sempre caía.
Éramos muitos. Eu, Mexerica, Toizinho, Tonhão, os gêmeos, Biloca, Costinha, Paulistinha, Zé do Jorge, Paulinho Voê. Tantos. O bando era destemido: caçávamos bandidos que se escondiam no capim alto ou dentro da casa abandonada.
Pular o muro para pegar fruta do pomar do Xico Louco era “A” aventura. Quem conseguia virava herói, com direito a vestir capa e dar ordens. Quem não conseguia voltava com um vergão nas costas ou a prova roxa do beliscão doído de Xico Louco. Mas a vergonha doía mais. A gente tinha honra.
Mas tínhamos tecnologia também. Falei muito ao telefone, que fazíamos com uma caixinha de fósforo vazia, um palito e barbante (olha a caixa de costura da minha mãe sendo assaltada de novo). Eu me escondia atrás do pé de mangueira para fingir que não estava a dois metros do amigo que falava do outro lado. Não, eu estava na China... Alô??!!
Precoces, tivemos carro próprio: o trolinho de madeira quem fazia geralmente eram os moleques mais velhos. Nisso até os gêmeos, preguiçosamente, ajudavam. As rodas eram rolimã, que a gente ganhava nas oficinas mecânicas. O volante? Um pedaço de corda velha. O freio era a sola do pé mesmo. Ninguém tinha medo de ladeira. Eu era valente, muito valente. Menos quando minha mãe chamava para jantar.
Não éramos crianças, nunca fomos: havia era pirata, Capitão Gancho, cowboy. E piloto de avião. Havia até quem fosse avião, mas quem resiste a uma rajada de vento lambendo o rosto num dia de calor? Caçávamos leões, lutávamos com eles. A gente se arranhava todo e no final cada qual saía cantando vitória. Inclusive os leões.
Difícil mesmo é esquecer aquele dia: Mexerica resolveu que tinha bandido dentro da parede da casa velha. Isso não era possível, claro. Já tínhamos espantado todos. Mas ele insistia: tem que ver. Tem que ver. Para ter certeza, derrubamos a parede a pontapés. E ficou provado que não havia ninguém lá. Mas deve ter ficado algum escondido, porque de repente o telhado desabou em mim. Eu não enxerguei nada, não senti nada, apenas raiva do bandido que havia nos enganado. Eu tentei, mas não conseguia me mover. Ouvia gritos. E tijolos se mexendo. De repente uma luz e a cara assustada do Mexerica.
Fora os arranhões, nada de mais me acontecera. Não seria dessa vez que os bandidos nos venceriam. O pobre Mexerica deu azar. Um tijolo esmagou sua mão esquerda. Ficou torta, côncava. Qual casca de mexerica. Por recompensa, dei-lhe o meu peão, tão cobiçado. Era o melhor de todos, e "dormia" como nenhum. Mexerica me olhou nos olhos e guardou o presente. A gente não agradecia, apenas guardava no bolso por um tempo e para sempre no coração. Era assim.
Cada dia era uma aventura no nosso paraíso. E uma certeza: nunca iria acabar. Nunca! E prometemos nunca nos separar. Nunca envelhecer. Isso jamais!
Achamos graça quando o caminhão de mudança levou os gêmeos, seus cachorros e a família. Logo iriam voltar. Claro. Mas não voltaram. Depois foi Paulistinha. Voltava para São Paulo. E Toizinho, o mais pequenino, que se foi chorando. Embora a molecada gargalhasse do escândalo que ele fez, logo ninguém mais riu. Sentamos na pedra do barranco, em silêncio.
Aos poucos todos se foram. Quando Biloca, o último de nós, saiu, eu já não morava mais lá. Já mudara para a cidade grande, mas ainda me lembrava da turma, do campinho, da pipa, do trolinho, telefone de barbante. Às vezes não queria lembrar. E fui melancolicamente me esquecendo que vivi no paraíso. Os anos se passaram, como areia entre os dedos, nem suaves nem ásperos; simplesmente passaram. E foram muitos...
Mas ontem alguém me parou na rua. Eu todo apressado, reunião às 09h, tinha lá tempo para papear com estranhos?
- Não tá me conhecendo, não?
- Desculpe, senhor, não estou. E tenho uma reunião, se me permite.
- Mexerica!
- Não, obrigado. Por favor, estou com muita pressa, amigo.
- Olha bem prá mim: Mexerica...
- Sinto, mas já disse que não quero (onde diabos está esse saco de mexerica?).
Só fui me dar conta duas horas depois, no break. Com um tapa na testa sacudi anos de memórias que um dia jurei guardar para sempre.
Corri à rua, desci as escadas do prédio feito um louco. Nada. Meu Deus: Mexerica! Depois de tantos anos eu não o reconheci. E como ele estava mal vestido, coitado. E a mão torta: ainda a mesma.
Cheguei a casa arrasado. Minha esposa percebeu – elas sempre notam. Contei a ela, mas nenhuma palavra de conforto faria diferença. Raquel chegou correndo da rua, como fazem as crianças.
- Papai, papai! Tem uma carta para você aqui na escada.
Era dele. Não me chamava de “cabeça”, agora eu era Dr. Alfredo. A carta era curta. Apenas se despedia, dizendo que tentara falar comigo, que gostara muito de me reencontrar. Dizia que notara que eu estava bem, viu que eu enriquecera. E que ficara feliz por mim. Nada mais.
Não levei tempo algum para reconhecê-lo, dessa vez. O corpo gelado do indigente que procurei por todos os albergues, asilos, hospitais e necrotérios estava bem ali, sentado à porta da minha casa. Tinha a cabeça repousada no colo, amparada pelas mãos. Quando toquei nele, senti um calafrio percorrer meu corpo e vi nitidamente um tijolo descendo diretamente sobre minha cabeça e uma mão esperta a desviá-lo. Mexerica... Lágrimas brotavam dos meus olhos, quando percebi algo cair do seu paletó surrado. Meu Deus! Era o meu peão. Estava novo! Ele nunca usara. Ele guardara para sempre.
Naquela semana não voltei ao trabalho: voltei à minha infância, à cidadezinha onde nasci e vivi meus anos mais lindos. Mostrei à minha família o meu paraíso perdido. E finalmente me lembrei de que matéria eu era feito. Depois disso, nunca mais fui tão pontual. Não a ponto de recusar um convite de Raquel. Hoje vamos brincar de peão no jardim.