A Velha Infância
ARNALDO PEREIRA DA SILVA
Quem nasce no interior cria com as pessoas de sua infância laços fortes que costumam resistir bravamente à ação do tempo e à ciclocidade da vida. Ainda que a engrenagem do destino leve cada um por uma vereda...
Nem mesmo o reino encantado de nossa meninice sobrevive à sede (adolescente) de ambição e aventura. Tamanha é a vontade de vestir e experimentar o mundo (idealizado nas matinês do cinema e nos documentários de televisão). Assim, num dado dia, saímos loucos rumo ao desconhecido, à incerteza do futuro...
Contudo, em meio às idas e vindas da vivência, eu sempre gostei de relembrar o passado, na maioria das vezes, povoado de momentos únicos: alegres, tristes, bons ou ruins. Poderiam ser fatos até banais, indignos de nota, não importa! Por causa disso passei a ter especial afeto por coisas velhas e antigas, a guardar cartas ou semblantes (principalmente daquelas meninas lindas que faziam meu rosto tímido e inocente ruborizar). Com isso, o singelo exercício de relacionar uma velha música com a memória distante provocava em mim resultados surpreendentes de contentamento e prazer... Droga! Nem sei por que a gente cresce!
E foi justamente esses pensamentos e um pouco de nostalgia que me fizeram tomar o caminho de volta. Porém, para minha surpresa, o redemoinho impetuoso do tempo cumprira sua sina: ele varrera minha cidade natal!... Quase nada havia sobrado!...
Foi muito triste parar diante das ruínas daquela casa humilde (lar e castelo de meus tempos de garoto), hoje, devorada pelo mato e pelas trincas. As telhas dependuradas, escuras, repletas de lodo seco, pareciam chorar sôfregas de saudade. Emocionado, arrisquei-me, empurrando o velho portão de madeira, roto e malicento, que reclamou rangente e flácido, quase corcunda. A estreita calçada de tijolos cerâmicos ainda estava lá, agora, recheada de formigueiros e ervas daninhas. O modesto casebre (mais à frente), ao ouvir meus passos evasivos, suspirou moribundo o mau cheiro do abandono. Com uma expressão rugosa e cansada tentava filtrar-me sob o calor escaldante daquela tarde.
E antes que colocasse os meus pés no alpendre, uma ventania forte e providencial varreu as folhas secas e a poeira, numa atitude desesperada de quem recebe uma visita imprevista. Senti um arrepio correr em minha espinha! Era impressionante ouvir as baforadas do vento literalmente dizerem, num tom doce e amável: “Não repare a bagunça! É bom te ver de novo!”
O meu pequeno castelo de sonho estava lá, de perto, quase como antes: a mesma porta de réguas, as mesmas janelas de madeira (agora) despidas de seus vidros. Por dentro, o efeito maravilhoso da luz do sol, vazante pelas frestas do telhado, iluminava a poeira suspensa pela aragem, criando um espetáculo magnífico e revolucionário de raios brilhantes. E a imaginação reportava-me a uma boate. Era audível a alegre sinfonia eletrônica de minhas noites cosmopolitas...
A alegria de tempos idos ainda exalava daquelas paredes... Um sorriso ensaiou-se abundante em meus lábios. O olfato foi então invadido pelo aroma saboroso que vinha das panelas sobre o fogão (aquele feijão em calda borbulhante, arroz branco com carne de sol, maxixe afogado com pimenta do reino, uma jarra de suco de graviola estrelado de cubos de gelo...). E minha boca salivava ansiosa... Até o farfalhar do vestido de minha mãe (pra lá e pra cá, preocupado com os fazeres do almoço...) eu conseguia ouvir...
De repente, um de meus ombros é tocado. Entretanto, estava tão absorto naquela farragem de cheiros e sabores que nem tive tempo de assustar-me. Atrás de mim, um rosto afável e moreno estendeu-me um cumprimento, enquanto armava um abraço festivo de afeto que viria em seguida.
- Mas que coisa boa vê-lo por aqui! Há quanto tempo, não?!
- Elton?! – indaguei, admirado.
- Sim!
- Elton Fróes?! – insisti, retorcendo as feições do rosto, ainda sem acreditar.
- Sim, moooço! Foste para o Sul para esquecer os amigos?! – confirmou homem gordo, bonachão, cabelo baixo, escondido num trivial “jeans e camiseta”. Apesar de tantas visíveis mudanças, era mesmo o bom e velho “Eltim”...
Emocionado, sorri outra vez o meu melhor sorriso (aquele que há muito estava guardado na minh’alma). Os olhos quiseram lacrimejar, apesar de meu esforço de não fazê-lo.
- Moooço! Faz algum tempo que eu estou ali, no fio da rua a assuntar sua silhueta, de pé, quieta e silenciosa. Quando o vi coçar uma das orelhas, reconheci o cacoete. Não tive dúvidas! Só podia ser você!...
Estupefato, apenas o observava abrir os braços (num gesticular característico), tomado de alegria. Ele não havia se esquecido de mim!
- E tenho certeza que você devia de “tá” aí... – voltou, apontando o solo, num sotaque arrastado (o qual eu já havia perdido para a histeria da cidade grande) – A se lembrar do quintal de nossa infância: dos carrinhos de madeira, do balanço que fizemos no pé de manga, dos cavalos de vassoura... Ficavam ali amarrados... – arrematou gargalhante, indicando um lugar atrás de si.
Corri os olhos apressado, mas vi apenas um amontoado de tijolos caídos daquilo que um dia fora um muro...
- Sim! Sim! – Não consegui segurar a emoção e chorei...
- Ali era cemitério de ratos e pardais. Vítimas de nossos estilingues e armadilhas. Lembra?!... – voltou ele, para outra direção. E seus olhos também brilhavam.
Conversamos ainda por um bom tempo naquele local, enquanto um filme maravilhoso era exibido diante de nós: nele, dois garotos pobres, mas alegres e felizes, seguiam um roteiro recheado de estripulias, peraltices, momentos de dificuldade e comprometimento.
No fim da sessão, dois homens saíram abraçados, felizes... Lágrimas abundantes se enfileiravam nas goteiras de seus queixos...
Naquele mesmo dia, conheci sua família, sua casa (que não era muito longe dali) e um pouco de sua vida. Juntos, almoçamos (para minha surpresa) praticamente o mesmo cardápio de outrora. Foi reconfortante ver que meu amigo havia vencido e estava bem...
E alegria maior foi sentir nossa amizade exceder à ruína falimentar (dos carunchos e da ferrugem) que consumira a velha casa de meus pais...
Bom, se existe uma receita da felicidade, mágica que seja, uma certeza eu tenho: Os bons amigos são o principal ingrediente!...