Laços de Amizade
MARIA SALETE BROMBAL

Final de uma tarde de férias, a mania de arrumar armários havia me vencido de novo. Eu estava entre os enfeites de natal e o material de artesanato, lá em cima do maleiro. Já estava terminando. Descia a escada, caixas na mão. De repente, pisei errado, na pontinha do alumínio, me desequilibrei e bati o joelho na quina da cômoda. Fiquei alguns segundos entre a dor e a surpresa, entre o riso e a desaprovação. E então veio o sangue, fluindo da cicatriz do caco da telha, aquela grande, tatuada para sempre no meu joelho esquerdo.
Hora de agir. O antisséptico ardeu como na infância e o último band-aid da caixa cobriu o ferimento latejante. Lembrei do seu antecessor, cuja cicatrização teria sido abreviada se eu não tivesse desenvolvido aquela estranha rotina autoflagelatória: durante a noite, o organismo se recompunha e formava casquinha; durante o dia eu cutucava, primeiro as beiradinhas, depois puxava mais e mais até a casca grossa quebrar nos meu dedos e sangrar de novo, primeiro uma gotinha, depois o fio vermelho crescia e escorria pelas minhas canelas encardidas, desaguando nos meus pés descalços.
Sentada na cama, observei a caixa de enfeites ainda caída no piso do meu quarto e uma legião de laços dourados pareciam formar uma trilha até o cartão verde e branco que se prendeu ao pé da cama, sobrevivente agarrado ao galho de uma árvore na queda daquela aeronave inusitada.
Apanhei o cartão e identifiquei o ingresso da comédia que um dia fomos assistir juntas. Mais engraçado que a peça, descobrimos, foi a escolha dos lugares no teatro. Escolhemos as poltronas com o mapa dos assentos invertido. Mais tarde, lá estávamos nós, sentadas uma atrás da outra, não ao lado. Foi tudo ótimo, a não ser pela dor no pescoço que me acompanhou por uma semana, resultante de tanto virar para trás para dar risada... Lembra? Cada vez que eu achava graça nas cenas, procurava sua companhia, para rirmos juntas. Foi assim que eu descobri que chorar, na maioria das vezes, é um ato solitário, enquanto o riso, decididamente, deve ser compartilhado.
Recolhi os laços fugitivos, guardei a caixa novamente e, ainda com o ingresso apertado na mão, resolvi ir ao supermercado comprar mais curativos.
No caminho, a indecisão foi minha companheira. Ligaria ou não mais tarde para conversarmos? Eu soube da separação, poderia me oferecer como um depósito de lembranças, queixas e impressões - certas horas faz sentido termos uma única boca e dois ouvidos.
Estava anoitecendo. Estava ficando frio.
No carro, divagações e pensamentos a bordo, em todos os assentos. Não ficaram no estacionamento, desceram comigo, aos bandos, companhias inseparáveis, e viajamos tão longe que, não fosse meu coração continuar a bater no joelho, talvez eu nem me lembrasse o motivo de estar no supermercado.
Passei pela gôndola dos matinais, virei à esquerda para alcançar a dos cosméticos e foi ali, bem na esquina, que nos encontramos. Um breve hiato entre o imaginário e o real, será mesmo que o pensamento conduz as nossas vidas? Eu ia mesmo ligar, vamos, sim, conversar, vamos agora para a minha casa?
Um brilho noturno tingiu a chave prateada que girava, abrindo a porta da sala. Meus cabelos haviam desistido de lutar contra o vento frio que me fustigava o rosto e eu cerrava os olhos, que ardiam com a umidade e a poeira. No espelho, um rosto intrigado numa moldura de fios emaranhados, observados por outro par de olhos, vermelhos, inchados, esculpidos no meio das manchas negras de rímel.
Ficou melhor a capa nova do sofá? Achei que você já tivesse visto. Não, não é novo. Acho que eu me apego mesmo às minhas coisas, não me desfaço, só renovo. Suco de morango de caixinha não é de seu agrado, eu já sabia, beber não, estou dirigindo... Água? Poderia ligar a televisão? Noticiários, novelas, seriados... Sim, eu já passei por isso. Sim, para cada pessoa é diferente.
Encostada na almofada, eu não conseguia encontrar nenhuma analogia, nenhum exemplo que representasse o sentimento. Talvez o mais próximo fosse aquela sensação de ficar sem energia elétrica em casa, no meio de uma tempestade, justamente no meio do banho. Primeiro, uma total desproteção, um frio no corpo molhado, a escuridão que envolve tudo. Depois, a toalha enrolada no corpo, os passos indecisos a procura de uma vela. Finalmente, a luz trêmula, que distorce as formas. E os reflexos. E a insegurança. Não é bem medo. É uma sensação estranha, uma impressão de que tudo é mais sombrio, mais frio, desconhecido. Os raios, que vez por outra, iluminam o ambiente como flashes, não são suficientes para devolver a paz interior. Os sons dos trovões, que sucedem esses raios, completam a atmosfera de desamparo. Por mais que os olhos tentem se acostumar, há um silêncio acusador que nos acompanha a mente, há monstros imaginários que nos assustam. Então, de repente, a luz. Motor da geladeira funcionando, filme passando na TV, rádio relógio piscando... A paz. A tranqüilidade de um mundo conhecido e sem sombras.
Não sei quantos minutos se passaram, podem ter sido horas.
É tarde, tenho que ir. Agradecimentos, abraços, a conversa mais muda que já tive na vida.
Cuida do seu machucado. Cuido, sim, amiga. Cuida do seu também. Faz como eu fiz com os laços, junta de novo tudo numa caixa, sempre que eles caírem. Laços são de seda, de tecido, não quebram. São laços de sangue, de família, de amizade. Laços de cumplicidade. Verdadeiros elos, que nos unem sem sufocar, sem apertar, deixando sempre um espaço para que a respiração consiga fluir. São de oxigênio, quando nos falta o ar. Às vezes pesam, para nos cimentar à realidade. Às vezes flutuam, quando as profundezas escuras tentam nos afogar.
Engraçada a nossa relação. Parece a comida que a gente deixou no prato, foi atender ao telefone, demorou horas... Mas, quando voltou era a mesma comida, quentinha e reconfortante. E a mesma fome.
Cinema amanhã? Combinado. O cinema não tem mapa de assentos. Rimos. Vamos estar sempre lado a lado.
Eu sei. Sabemos.


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