Mãos dadas com Papai
ISABEL CRISTINA M DE O AMUI

Estou certa que meus pais, além do amor incondicional, me deram também as primeiras lições de amizade, respeito e parceria. Ainda tenho na memória a primeira parceria que tive na vida.
Sou filha única e talvez fosse pelo corte de cabelo que meu pai escolhia para mim, ou pelas calças compridas que ele me dava de presente, ou pelas nossas sessões de cinema - que geralmente eram de filmes de faroeste - ou nossas tardes de futebol de botão, eu, mesmo ainda muito garotinha, tinha a impressão que meu pai tinha necessidade de um filho e que na falta de um eu mesma servia.
O melhor é que eu encarava isto com a maior naturalidade.
Ele gostava muito de caçar e naquela época, quando ainda era permitido, participava de caçadas até fora do estado.
Morávamos no interior de São Paulo e ele ia com freqüência para Mato Grosso, Minas Gerais e Goiás para suas caçadas.
Um dia disse para mim: - ”É hora de aprender a atirar com o papai”.
Minha mãe descabelou: - “Tá doido, isso não é coisa de menina ... ela não tem nem tamanho nem maturidade para pegar numa arma. Só permito se for por cima de meu cadáver”.
Ela continuou intacta mas certo dia lá fui eu com meu pai - ora com uma Winchester 44 “papo amarelo”, ora com uma Rossi calibre 22, ambas quase do meu tamanho e nem uma valia grande coisa para atirar - para uns campos lá perto de minha cidade.
Geralmente eram fazendas de amigos dele e andávamos enormes distâncias apreciando a paisagem e com ele me apresentando árvores de frutas desconhecidas, e uma variedade incrível de pássaros que nem ele próprio sabia o nome, mas que arrumava apelido para cada um dependendo do canto.
Primeiro foram aulas de empunhadura, como apoiar a coronha na “saboneteira”, firmar e subir o cotovelo em linha com o ombro, levantar o outro braço, mirar, segurar a respiração.
Foi demorada esta parte do aprendizado porque eu, com meus dez anos, ainda não tinha muita firmeza com as mãos.Tremia muito.Quase não alcançava o gatilho para manter a posição do braço. Mas me esforçava e meu pai me sorria de uma forma sempre muito encorajadora.
Quando encontrávamos alguma construção meio demolida ou abandonada, ele enfileirava garrafas, objetos de plástico e me incitava a “mandar brasa”.
Meses depois minha porcentagem de erro já era bem menor e até eu mesma comecei a me surpreender com a minha pontaria.
Foi então que no Natal, junto com uma boneca chamada “Tagarela” eu ganhei uma espingarda de chumbinho.
Meu pai e minha mãe passaram o Natal de mal um do outro, mas eu sorria de orelha a orelha e a meninada da rua fazia fila para ver.
Quando me entregou o presente, meu pai me disse: - ” Te dou a espingarda mas o chumbinho só terá quando estiver comigo e formos atirar juntos”.
E assim, de vez em quando, saíamos para o mato para nossa sessão de tiros.
Nunca tive coragem de matar nenhum animal nem nada que voasse.
Eu só atirava em coisas como uma laranja no pé, uma marquinha numa pedra ou nos alvos que meu pai fazia para mim . Vale a pena dizer que os aplausos dele pelo meu desempenho eram ruidosos e me premiava com abraços, cambalhotas, cócegas, balas e vasinhos de violeta. E ainda me exibia para sua roda de amigos e contava meus feitos com o peito estufado de orgulho e os amigos me chamavam de “Calamity Jane”.
Logo que eu fiz doze anos, ele chegou de uma de suas costumeiras viagens a São Paulo - onde ele ia pesquisar e comprar novidades para a nossa loja de roupas - com um embrulho lindo.
Como sempre me trazia algo de presente nem estranhei muito.
Então me chamou de ladinho e falou: - “Trouxe uma coisa para você mas vai ser na base da troca” .
- “Estive pensando que você já está uma mocinha...”
(Que nada! Eu era a mesma criancinha de sempre só que com os quase meus 1,72m de agora).
- “... e resolvi que temos que mudar algumas coisas”.
- “Você me dá sua espingarda de chumbinho e eu te dou algo em troca”.
Meu coração acelerou.
O que poderia haver melhor do que minha espingarda?
Mas concordei e quando abri a caixa e vi um sapatinho de couro todo prateado, com dois dedos de salto, todo reluzente dentro da caixa, nem pensei duas vezes, estava feita a troca.
E acho que foi aí que realmente meu pai deixou de ver em mim um filho.
E foi aí que, alegremente, desisti de ser como um filho para ele.
E desde então nossa parceria estava fortemente selada.


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