Meio irmão de cá, meio irmão de lá.
GILSOMAR CORREA DA CUNHA
Eram meio-irmãos, filhos do mesmo pai, mas por um capricho da genética, eram tão parecidos, que todos que não conheciam as suas histórias, acreditavam que eram gêmeos univitelinos.
Valdemar, cuja mãe morrera quando ele nasceu, era fruto de uma relação extraconjugal do pai de Valdemir.
A mãe de Valdemir, após dar a luz ao seu único filho, recusou-se a alimentar e a beber, e faleceu uma semana após o parto, segundo o relato dos antigos, foi a forma que encontrou para punir o marido pela traição sofrida.
O pai dos meninos suportou toda a censura imposta pela sociedade, e com a ajuda das avós maternas, criou-os da melhor maneira que sabia e podia, e com enorme satisfação viu nascer a amizade e a cumplicidade entre as crianças desde a mais tenra idade, e o fortalecimento desse elo com o passar dos anos.
Durante muito tempo a semelhança entre os meio-irmãos foi motivo de curiosidade, pessoas vinham até de cidades vizinhas para vê-los “com os próprios olhos” e, invariavelmente ficavam impressionados com o fato.
Os irmãos, nascidos no mesmo mês e ano, suportaram juntos as vicissitudes da vida e os constrangimentos causados por suas histórias, cansados de tentar explicar o inusitado, passaram simplesmente a admitir que eram gêmeos.
Atualmente eles estão com cinqüenta anos, são vizinhos, e moram em casas exatamente iguais, construídas na mesma época, uma em cada lado da rua.
Residem naquele bairro, bem antes do progresso e a valorização imobiliária chegarem, atualmente, as suas modestas “casas espelhadas” contrastam com a suntuosidade das mansões vizinhas.
Valdemir morou dez anos em outra cidade, numa fase de rebeldia com o pai, mas isso já faz muito tempo, e o seu irmão nunca saiu da cidade natal.
Todas as tardes, os irmãos ao regressarem de suas ocupações, costumam conversar sobre política, futebol, relações de trabalho, problemas dos filhos já crescidos e banalidades em geral, e em especial, adoram relembrar a época áurea das suas infâncias.
As esposas deles há muito tempo já não se incomodam com a atenção que os irmãos se dedicam, sabem que podem confiar neles, e que basta acenar pedindo ajuda, que quatro braços vêm servi-las.
Num final de tarde, sentados na varanda, Valdemir, que conserva um afinado senso de humor e crítica social, desenvolvidos no tempo que residiu na cidade grande, observa um cachorro defecar no gramado bem cuidado, em frente a sua casa.
A dona do animal, espera tranqüilamente o cãozinho realizar suas necessidades e o conduz placidamente para concluir o passeio.
- Hoje eu acerto o passo dessa madame, ela não perde por esperar.
- Irmão não faça confusão com os vizinhos, deixa isso para lá, não vale a pena.
- Liga não, ela sequer nos considera assim, para ela o bicho tem mais direitos que nós.
Passados alguns minutos, os irmãos avistam a senhora regressar, rapidamente, Valdemir vai ao portão e quando a senhora se aproxima, ele a intercepta.
- Senhora, o seu cachorrinho tem esquecido alguns pertences em frente a minha casa e eu os guardei para devolver.
Ato contínuo, entregou três sacolinhas cheias de fezes para a mulher, e diante do embaraço dela, completou:
- Nessas sacolas estão os dejetos de hoje e dos últimos dias, doravante espero que a senhora os recolha, pois, se o seu cachorro não gosta do meu gramado, a minha grama tem todo o direito de não gostar do seu cachorro também.
Quando a mulher se afastou, os irmãos caíram na gargalhada, e esticaram a conversa animadamente
Passados mais alguns minutos receberam uma mensagem. O pai deles que residia em um canto afastado do país, e que há muitos anos não os visitava, viria passar as festas de fim de ano com eles.
A relação com o pai era tabu entre os irmãos, depois de terem discordado sobre isso uma vez, antes do exílio de Valdemir na cidade grande, fizeram um pacto silencioso e nunca mais falaram a respeito.
Valdemar aceitou muito cedo que nasceu por um mero acaso, a sua reflexão era simples; um jovem casal se desentendeu por uma tolice qualquer, o homem buscou refúgio nos braços de outra mulher, e uma vida foi gerada sem ser planejada ou desejada.
A grandiosidade daquele homem não permitia que ele julgasse alguém por isso, preferia dedicar o seu tempo para agradecer pela vida que lhe foi concebida.
Por sua vez, Valdemir ao completar a maioridade incriminou o pai, não se comoveu com o sentimento de culpa que esquartejava a essência do seu progenitor. Saiu de casa, morou dez anos na capital e retornou casado, com um filho pequeno.
Naquele final de tarde, Valdemar julgou que havia chegado a hora de resolver a questão, e que deveriam conversar antes da chegada do pai, rompeu o silêncio de décadas para aplacar uma dúvida que carregava e perguntou:
- Já perdoou o nosso pai Valdemir?
- Do que?
- De ele ter traído a sua mãe.
- Sim, por sua causa meu irmão.
- Como assim? Quando foi isso?
- Quando compreendi que perdi minha mãe que morreu de desgosto, mas ganhei um amigo de uma vida inteira.
Valdemar, engoliu a emoção a seco, e em seguida foi surpreendido por uma pergunta.
- E você Valdemar já o perdoou?
- Do que???
- Do amparo que o pai não deu a sua mãe?
- Sim eu já o perdoei faz muito tempo. Minha mãe pereceu nas mãos de uma parteira quando deu a luz, mas também poderia ter morrido num hospital, ninguém é capaz de compreender os desígnios divinos.
- Isso é verdade. Vou te confidenciar, a minha desavença com o pai naquela época foi motivada também pelo fato dele ter deixado a sua mãe desamparada, mas agora conhecendo o seu ponto de vista, a minha alma está apaziguada.
Após alguns instantes sem nada dizer, os irmãos amigos se abraçam com profundo respeito e ternura, e com a voz embargada, um lança uma espécie de mantra que utilizam desde a infância, sendo prontamente respondido pelo outro:
- Meio irmão de cá
- Meio irmão de lá
- Meio com meio dá um.
- Um irmão inteiro para cada um de nós.