Sobre presepadas e despedidas
GUDERIAN DUARTE COUTINHO
Caríssimos Amigos
Permitam-me comentar, rapidamente, sobre a maneira, pouco convencional, no mínimo esquisita com que parti na última sexta-feira.
Quando era pra ter sido um momento bacana, pra
cima, com direito às últimas piadas, os derradeiros impropérios, enfim, leve.
Pois bem, na manhã daquele dia, sexta-feira 13, acordei com o coração pequeno, atormentado por uma tristeza morna que me remetia a uma sensação de vazio.
O mesmo vazio indócil que sentimos quando acabamos a leitura de um livro bem escrito e meio que apegados ao enredo desejamos mais um capítulo.
Essa percepção de vazio não só me acompanhou como cresceu durante o dia, parecia ressonar do peito para cabeça causado-me um grande desconforto.
À tarde, quando encerrei, numa caixa de papelão, todas as coisas que cabiam levar para casa, percebi que não conseguia encaixotar alguns itens de primeira necessidade, básicos mesmos, os quais estava tão
familiarizado.
Como eu poderia encaixotar o bem querer mútuo, espontâneo, que permeia todos os cantos da nossa sala? E as sonoras gargalhadas que estavam por vir?
Perguntava-me como eu poderia fatiar e levar ao menos uma pequena porção das atitudes generosas, comuns a todos da equipe?!?
Foi então que percebi o quanto era bacana a relação que construímos, havíamos ultrapassado o mero conceito de equipe e nos estabelecemos noutro patamar muito mais sofisticado: o da amizade, baseada no respeito e na confiança mútua.
Perder esse modo de viver e constatar o fim de uma época era o que motivava e alimentava o incômodo vazio.
Me senti só, como o "puro deserto amarelo onde só reina o vento", e naquele momento fazia sentido a tristeza que carregava desde cedo no meu peito.
Tive vontade de chorar.
Confesso que chorar me faz um bem danado, dizem que até evita infarto no miocárdio, mas sou de natureza prática e quando tomo uma decisão entendo que as outras opções não devam mais ser consideradas e sim
descartadas.
Enfim, não é inteligente sofrer pelo que não foi feito ou pelo que poderia ter sido.
A mesma natureza prática aliada a um lado punk fortíssimo que possuo não me abriu outra opção para estancar aquela catarse, senão sair correndo.
Precisava interromper aquela enxurrada de emoções que estavam por vir, não ia resistir as descargas de adrenalina que cada abraço de despedida iria despertar.
Mas, apesar de tudo isso, tentei resistir, e num gesto de enfrentamento ou desespero, lancei-me ao primeiro abraço fraterno.
E foi logo com a Célia, amiga caríssima, de todas as horas ... Não houve como segurar.
Timidamente choramos.
Os amigos choram juntos por qualquer motivo, e, neste caso, tínhamos muitos motivos! Eu me perguntava como era possível prescindir de uma parceria tão perfeita, tipo arroz com feijão.
Despedir-se com um abraço fraterno é um gesto universal de paz, onde, solenemente, paramos tudo e, em um breve instante de 10 ou 15 segundos, unidos por
braços entrelaçados, trocamos lembranças, externamos lamentos, promessas e juras de felicidade, frases incompletas são balbuciadas, somos mais sinceros, pois é impreciso o próximo encontro.
Por tudo isso, tive a clareza que não conseguiria ir adiante, não tinha mais forças pra abraçar mais ninguém, pois o abraço de despedida é doce e pesado.
Bem, o restante foi aquela presepada que todos vocês presenciaram, agarrado a minha caixa de papelão lancei-me cego em passos apressados ao corredor, fui embora sem olhar pra trás.
Confesso que foi um gesto tosco, mas sincero, pelo qual peço minhas mais sinceras desculpas.
Abro minha alma numa tentativa de conectar-me a sintonia desse grupo de amigos e assim espero que me perdoem de verdade, pois não era isso que vocês esperavam ou mereciam.
Fui!
"Hoje eu quereria estar no deserto amarelo, sem beduíno, camelo ou rebanho de cabras: no puro deserto amarelo onde só reina o vento grandioso que leva tudo, que não precisa nem de água, nem de areia, nem de flor, nem de pedra, nem de gente. O vento solitário que vai
para longe de mãos vazias. Hoje eu queria ser esse vento!"
Cecília Meireles.