Infância
GILMAR DELVAN
Os pequenos carros de madeira descem em disparada. As rodas, feitas com rolamentos metálicos, soltam no ar um zumbido ensurdecedor. São sete carrinhos ladeira abaixo. A corrida fica mais instigante pela sinuosidade da pista improvisada em plena rua, que se estende da praça em frente à Igreja até a plantação de milho do seu Valdemar.
Joaquim, com as pernas muito cumpridas apoiadas no sarrafo que serve de volante, meneia o corpo pra lá e pra cá, de acordo com o sentido das curvas que se descortinam pelo caminho acidentado. Vez por outra um buraco no areão faz um dos veículos saltar, mas até aqui a perícia dos condutores evita qualquer acidente no percurso.
Como todas as sextas-feiras, Vilma, a neta do seu Valdemar, enche de espigas de milho verde a cesta frontal de sua cecizinha cor-de-rosa e segue para a casa paroquial, levando a contribuição para o final de semana do Padre Ambrósio.
Na verdade, a bicicleta servirá somente para a volta, quando então descerá a ladeira a toda velocidade. Na subida, segura no guidão e vai conduzindo a pé, caminhando ao lado do seu delicado velocípede. Além do cantar dos pássaros entre as árvores que ladeiam a estrada, escuta também o zunido, cada vez mais alto, e tenta prestar atenção para descobrir do que se trata. Joaquim avista a menina e tenta se exibir. Linda. Nunca teve coragem de falar com ela. Solta as mãos da base e abana. Gesto fatal.
Antes que perceba, voam espigas de milho, bicicleta, carrinho de lomba, Joaquim e Vilma. Os demais competidores passam em louca velocidade, com os cabelos esvoaçando ao vento. Joaquim, enroscado na bicicleta que, tombada, ainda tem as rodas girando e emitindo o característico som da catraca, não consegue ver quem venceu a corrida, chegando primeiro ao final da pista. Só sente a dor no pulso e a perna toda escalavrada pelo areão. Nem notou que faltava a tampinha do dedão do pé direito.
Vilma levanta-se chorando, ajeita a saia azul e olha surpreendida para o desastrado corredor ao seu lado. Não sabe o que fazer primeiro: socorre Joaquim ou recolhe as espigas? Na dúvida, levanta a bicicleta e tenta, em vão, desentortar o paralama dianteiro. Esquece Joaquim e o milho e volta para casa, carregando o veículo avariado.
João Palito chega correndo, quase sem fôlego, para ajudar o amigo. Acompanhara toda a corrida seguindo os pilotos pela beirada da rua. Com a mão direita ampara Joaquim, que quase nem consegue caminhar. Com a outra, leva o carrinho de lomba, suspendido pelo eixo da frente e as rodas traseiras arrastando no chão. Seguem assim, os dois companheiros, rua afora.
Chega finalmente o domingo. Droga! Hoje é o campeonato de bolinhas de gude. Com essa mão machucada, não consigo nem fazer o inhaque. E cú de galinha não vale, lamenta-se Joaquim, deitado na cama com a perna enfaixada de gaze, e todo manchado de mercúrio cromo.
João Palito, sentado na beira tenta consolar o amigo. Nem tudo está perdido. Logo, logo, vem a temporada do pião e você estará novinho em folha. Não esquenta a cabeça. Pior estou eu que perdi até a joga para o Carlão e o Beto. Não tenho nem como entrar no campeonato.
Joaquim, a duras penas, levanta-se e leva o companheiro até o porão. No caminho, pega um martelo na gaveta do armário das ferramentas. Levanta uma das tábuas do assoalho e retira o galão de tinta Renner, bastante amassado e já sem a alça de arame em semicírculo. Abre e mete a mão dentro, tirando-a cheia de bolinhas.
Olhou... olhou, e deixou cair uma a uma, com aquele barulhinho: thim toc tic tic toc toc thim titititiiiim. João Palito ficou observando por longo tempo, sem acreditar no que estava vendo. Nossa! Quantas! Mais de oitocentas, disse Joaquim, pode pegar quantas quiser. Amigo é para essas coisas.
Corre até o local combinado com a turma. João não se inscrevera a tempo, pois, a princípio não tinha mais bolinhas. Foi um alvoroço, mas ao verem o saco de pano cheio até quase a borda, cada um pensou em tê-las para si, e até quem era contra a inscrição, acabou cedendo.
Casadas as bolinhas no círculo, riscado sobre o solo poeirento, fora iniciada a batalha. Naquele tempo as calçadas da pequena vila, em sua maioria, ainda não eram recobertas de cimento e pedra. O jogo começou. Ah! Que animação.
Uma, duas, três. Era empolgante, a adrenalina acumulada por conta da competição da sexta-feira, ainda corria pelo corpo de João Palito.
Pisou na linha... carregar não pode... cú de galinha não vale...não saiu...limps...mudis...sujis..corrids....alts....quero tudo e não dou nada...Sim, porque essa é a linguagem dos jogadores de bolinha. Foi limpando um a um, apesar das tentativas dos mais velhos em sabotar o jogo, ameaçando um arrastão.
Por volta do meio-dia, ainda restava ele, o Julinho e o Cacá. Juntos ganharam as 180 bolinhas dos demais. Agora só valia na seca. Era uma agonia. Um sofrimento. Teve a sua joga favorita lascada por uma tacada mais violenta do Cacá. Trocou-a e continuou a luta, imponente.
Horas depois, com os bolsos abarrotados, o saquinho lotado, e a camisa com as mangas entulhadas, João Palito volta à casa de Joaquim. Se viesse de uma cruzada, tivesse derrotado uma frota de piratas, matado o dragão e salvo a princesa, não estaria tão orgulhoso, tão energizado, tão eufórico, levitando. Ele é o campeão!
Não chega a entrar na casa. Imagina Joaquim deitado na cama, lendo um gibi do Tex, desconsolado. Não fosse a confiança do amigo em ceder seus maiores tesouros, essa vitória não teria tanto brilho.
Esconde as bolinhas sob a escada da porta de entrada e volta-se correndo em direção à Rua da Ladeira. Em poucos instantes está defronte ao portão do seu Valdemar. Surge na porta a menina de tranças negras e vestido xadrez. Que tal ir comigo visitar o Joaquim? Pergunta.
Ela, com um brilho no olhar, não pensa duas vezes. Desde o dia do acidente, não tirou mais da cabeça a imagem daquele menino desengonçado.
Vilma pedala ladeira acima, enquanto João Palito empurra com as duas mãos firmes no porta-pacote. Agora está satisfeito. Amigo é para essas coisas.