Melodia do amigo
JOSE VICENTE CARNEIRO FILHO
- Afina, Zé!
- Tô tentando, Chico, mas qual a corda você acha tá fora do tom?
- Peraí! Toca lá um dó!
- Chico, ôce qué um lá ou um dó, afinar?
- Afinar é cocê, Zé! Só toque pra eu ouvir.
- Então escuta, amigo!
- Que canção é essa que você tá tentando tocar, meu amigo Zé?
- Escutei ontem na quermesse! O moço disse que é uma tal de canção da América!
- Canção da América? Fala do que? Daquele tal de states?
- Não Chico! Ela canta o valor de um amigo?
- Como assim? Qual o valor de um amigo?
- Sei não, mas ela começa dizendo uns negócios bonitos assim...amigo é coisa pra se guardar debaixo de sete chaves...dentro do coração!
- Zé, mas que música bonita! Eu acho que amigo verdadeiro é tão raro que eu também guardo sempre dentro do meu coração, pois lá só chega quem eu quero. E ainda tem que passar por sete chaves. Zé que tanto de chave será que é esse?
- Chico, tava pensando nisso ontem de noite, só dormi depois de esquentar muito a molera, e acho que descobri. Uma chave está no olhar, outra no ouvir, no pensar, no sentir, no carinhar, no abraçar, no abençoar. Acho que quando a gente guarda um amigo no coração só quem sente tudo isso chega lá também.
- Que bonito Zé! Isso sim é um amigo de verdade! Mas continue a música.
- Ela diz também...mas quem cantava chorou...ao ver seu amigo partir. Triste essa parte, mas também é uma verdade!
- Ô se é, Zé! Tristeza é um troço que dói fundo quando um amigo de verdade vai embora. E eles vão embora de tantos jeitos.
- Mas veja que troço engraçado, a gente é feliz quando pode sentir a tristeza de ver um amigo partir, não é não Chico! Feliz é ter amigo, mesmo que ele um dia se vá partir.
- Zé! Meu avô dizia que um amigo de verdade pode partir, mas a amizade jamais vai se dividir.
- E a música continua dizendo que um amigo verdadeiro tem tanto valor que é preciso guardar do lado esquerdo do peito... mesmo que o tempo e a distância digam não. Fiquei pensando nisso também e olhe de novo a gente guardando o que tem valor dentro do coração, bonita esta parte também, não acha Chico?
- Certo como essa luz que me alumia, Zé, e não tem tempo bastante grande e distância de légua tão longe que uma amizade não alcance. Verdade, muito verdade isso, acho que amizade é um sentimento que não dá prá medir só dá para sentir.
- Isso mesmo Chico. Pois não é que no final a música fala disso... qualquer dia amigo eu volto...pra te encontrar...qualquer dia amigo a gente vai se encontrar. Taí a esperança que nunca morre quando a gente tem amigo de verdade, a gente sempre espera encontrar, nem que seja noutra vida.
- Credo, Zé! Vamos não pensar noutra vida, não. Quero viver nossa amizade muito ainda nesta vida, meu amigo.
- Também quero assim Chico! Vamos lá então toca essa música de novo, afinal amizade sincera é aquela que a gente não sabe bem como começa e sabe bem que nunca termina.
E lá se vão os amigos estrada afora, caminhando e cantando uma linda canção, mas espera um pouco, essa já é outra música.