Matia, Pedro, e os outros...
FABIO PORTO SILVA

Quando Matia correra apressadamente na saída da escola, foi que Pedro o derrubou. Toparam-se, é bem verdade, mas muito aquém dela estavam, a princípio, os dois, que se entreolharam imediatamente enviesados. Pedro, de uma consistência mais firme, pouco ou nada se abalara com o incidente, enquanto Matia, o joelho arranhado por baixo da calça esgarçada na queda, bradava vindo ao encontro do outro, que permanecera sisudo, inerte, o olhar voltado para o alto distante.
Talvez confuso, nessa bravata que era o caminhar até a desforra, essa psicologia desarrazoada de mornidões, Matia arrefecera. Via claramente agora o engano que cometeria ao se arriscar numa vã contenda. Portanto que, vendo Pedro aos seus pés, por ser bem mais baixo, Matia perguntou-lhe, afavelmente até, se o havia machucado. Ao que Pedro, calado, somente lhe fitava com extremada amizade. Fincada em sua raiz, sua robusta resistência ali permanecia. Não temia, entretanto, devido ao tratamento cortês que lhe dispusera o desafiante, nenhum confronto. O que se tornou, enfim, um fato não só inútil, mas também longínquo.
Quem os assistisse tampouco compreenderia a estranheza de suas resguardadas posições, não fosse Matia a assinalar, a evidenciar o banal num mero estender de mão, em querer ser meu amigo, ouviria perguntar esse terceiro ali presente agora mais tranqüilo que... ora, dois desses daí silenciosos um diante do outro, que assim complementaria e passaria a frente.
Pedro e Matia, a partir disso, não se desgrudavam por um segundo. Matia sempre conduzia o amigo nas aventuras mais singulares. Reinventavam tudo, adaptavam à inércia, principalmente, de Pedro as brincadeiras, onde Matia se distinguia agilmente, com exceção de algumas em que era preciso calma, cautela. E Matia, então, cruzava os braços numa birra habitual e ia embora, por alguns minutos, que tão logo voltava, os olhos rasos de lágrimas, inchadas as pálpebras mal disfarçadas, escarnecendo suas próprias tolices, desculpando-se da falta de paciência para com o amigo. Pedro, não. Pedro nunca fora emotivo. Pedro era uma pedra.
Matia abaixara-se para pegar o amigo que sequer movia um passo, sequer esticava uma mão para lhe dar menos trabalho. Qual nada! Mantinha-se inalterado; em sua condição de pedra, não lhe era menoscabo o permanecer simplesmente. Matia entendia-se consigo mesmo e não se importava. Zeloso em seus íntimos melindres, colocava o amigo no bolso do calção, apalpando-o constantemente na algaravia do corre-corre. Vai ver onde vou levá-lo, Pedro! Faremos as pazes... oh, que digo?!! Se já somos amigos, e seremos pra sempre. E pressionava o bolso com mais afinco, despreocupado na desbaratada correria, nesse alheamento dos perigos que, na criança, consterna os adultos mais simplórios.
Mal finda a rua, mal vencida estava à esquina, uns moleques maiores seguraram Matia pelos braços por maldade, que se debatia aflito. Esperneava inconsequentemente, quando pisou por fim o pé de um dos brutos malfeitores. Fez-se um silêncio que lhe pareceu maior. Pedro, rígido, condoía-se de sua natureza. Não poderia ajudar o amigo em apuros. Mas faça algo! Não posso, Matia, sou uma pedra. Os garotos viram Pedro estardalhar na calçada, abandonando-se logo depois em sua empedernida inércia. Decerto caíra do bolso de Matia na confusão. NÃO, ouviu-se um estridulante berro. Era Matia que se lançara contra os malvados, mas não houve tempo de recuperar o amigo que foi arremessado por sobre o muro, num terreno em construção.
E, hoje ainda, pode-se ver nitidamente, qualquer que seja esse terceiro estranho a despojar-se do olhar, o menino que vem crescendo aos poucos. Pode-se vê-lo chafurdar nos restolhos da construção naquele fatídico terreno. Entre as pedras que recolhe nos braços afoitos, perscruta-as, uma a uma, a ver se reconhece o amigo tão semelhante entre as outras. Quem o vê dessa forma, provavelmente, estranhe-lhe o firme desânimo com que se livra das pedras erradas... ora, um garoto desvencilhar-se de pedras daquele jeito... francamente, diria e passaria adiante.


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