SUSPIRO
MARIA ENEIDA SIMOES SANTOS
Trazia na face sinais abatidos. A barba mal feita, olhos fundos, pele suja de suor, seus lábios ressecados, olhos tão perdidos que até lhe pareciam querer fechar as retinas enquanto os olhos abriam. Suas mãos estavam sujas, fixas em sua cabeça, se confundiam com seus cabelos sujos, desarranjados, oleosos, evitando que se fizessem evidentes os tremores. Estava claro que não comia havia algum tempo. Este homem tinha todo o corpo enfraquecido, mas não parecia um mendigo, ainda não, de certo que estava fora de casa desde dias atrás, porém não era um pedinte, ainda não.
Estava sentado ali, na entrada do metrô, no meio de todos, imperceptível, só mesmo era notado pelos que conseguiam distinguir naquele quadro deprimente a qualidade de sua vestimenta que já se ia tornando rústica pelo tempo. Uma camisa branca de grife desbotada pela sujeira, suas calças de boa costura rasgadas, contudo não tinha mais sapatos nos pés, de certo a estranheza da vestimenta daquele cidadão era facilmente explicada por qualquer doação filantrópica de uma viúva rica ou de um empresário que trocara o armário e resolveu transparecer bondade.
De cabeça baixa, com fome, pensava na desgraça de sua vida, como perdera tudo o que lhe era importante. Arrogante, criticou o mundo e não se viu parte dele. Dizia-se deprimido, estava farto, cansado, triste. Haveria de começar a pedir se lhe fosse interessante continuar a viver, se não, ficaria por ali, circulando como mais um louco, transformar-se-ia num novo personagem das ruas. Uma “velha dos cachorros”, um “doidinho da rua do lazer” e, de certo, viraria lenda rapidamente, posto que sua loucura seria evitar o mundo e tudo que vem dele.
Ergueu a cabeça e vendo todas aquelas pessoas circulando, de repente, encolheu-se outra vez, rápido, cheio de vergonha. Passava por ali um homem de roupas simples, calças comuns, camisa de algodão, tênis nacionais e barba bem feita. Parecia-lhe aflito, buscava algo em cada rosto e não parecia descontente em fazê-lo. Deu de olhos com aquela imagem que parecia tão comum a todos e logo foi em sua direção. Tocou-lhe o braço, chamou-o pelo nome e disse o que pensava. Falou da vida, da morte, falou bobagens, lições, falou sobre Deus e sobre os homens e falou sobre a imperfeição do mundo e sobre tudo o que nos forçava a seguir um caminho só. Não parou por aí, convenceu-lhe que a vida seguia e que o começo não é só quando se nasce, mas sempre que se muda de caminho ou de vida.
Ouvindo tudo atentamente, o cidadão semi-mendigo, enchia de lágrima os olhos, as maçãs do rosto umedeciam, um homem sem muitas emoções se emocionava. Ao perceber que tudo o que lhe dizia aquele simples homem não tinha intenção alguma além de chamar-lhe para a vida, notava que nunca havia sido mais do que conhecido dos tantos seus, ninguém fora lhe procurar, ninguém se importava, mas aquele homem simples há tempos esquecido e pouco notado era o mesmo que ele conhecera em sua infância, era o mesmo que ele ajudara e que lhe ajudara quando mais novos. Aquele não era um discurso qualquer. Aquele era um amigo dando a mão ao outro, sem pedir nada em troca, sem dever nada.
Viu, então, que não era o dinheiro, o status, a situação que fazia o homem feliz ou triste, viu que a amizade era a verdadeira base da felicidade, a sua verdadeira riqueza que nunca perdera. Levantou-se fraco acudido pelo amigo, foi levado à sua casa, comeu, dormiu e começou uma nova vida.