O AMIGO DAS PALAVRAS
EMMANUEL CHACARA SALES

Vivia uma vida de poste
plantado na soleira das tardes.
Feito um domingo perdido
no meio da semana,
conversava “passarês”
com as aves empoleiradas
nos galhos da sua solidão.

Durante o dia,
as pálpebras ciscavam o sono.
Só levantava do seu abandono
para abraçar o vento
que brincava,
fugindo dele em desabalada carreira
por entre o matagal dos cabelos.

Acendia a noite
enfeitando as orelhas
com brincos de vaga-lumes,
provocando na lua
risadas de quarto minguante.

Diziam que era louco,
que não prestava para nada,
pois achava sentido no universo
das pequenas coisas desprezadas.

Compreendia a desilusão de uma carta rasgada,
a decepção de um prego entortado,
a catarata de uma lente de óculos quebrada,
o abandono de um botão de camisa rachado.

Por tudo isso,
tornara-se
amigo das palavras
e o único
capaz de libertá-las.

Segundo ele, os homens
escravizaram as palavras
com os grilhões das definições
e as algemas dos conceitos.
O dicionário era
a maior das senzalas.

Conhecia as pedras
muito antes
de serem chamadas pedras,
e, por isso,
enxergava nelas
um sol hibernando.

Para ele,
árvores eram cânticos de passarinhos,
estrelas, olhares de crianças,
água e rio, sangue e veia da terra,
abelhas, flores de asas.

E quando queria viajar,
abria
as entranhas da palavra vento,
entrava,
acomodava-se
e assobiava o mundo.

Em sua companhia,
as palavras ficavam
desavergonhadas de sentido,
nuas de gramática.

Livres,
passeavam
alegremente pelo texto,
criando idiomas
de criança-feto,
brincando nas águas,
no planeta útero.


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