FOLHAS
EMMANUEL CHACARA SALES
No quintal, quando o outono transformava o verde das árvores em colchão, eu me deitava e modelava as nuvens com o olhar. Montava cavalos. Desafiava leões. Empinava estrelas. Até que o avental da cerração cobrisse os olhos da imaginação. Nessa hora, minha irmã, um ano mais nova, parceira inseparável de folguedos, tecia junto comigo a seda avermelhada das tardes. Em meio ao amarelo das folhas que atapetavam o chão, éramos de um verde tenro. Sem ela, não conseguia existir sozinho. Quando pela primeira vez fui à escola, ela também foi junto. Precisava dela para ser eu mesmo. Formávamos o que o meu pai chamava de Sociedade Secreta da Folhas. Vivíamos encarrapitados em árvores. Sabíamos das estações pela cor das folhas. Ela era pequena, mas cativava pela grandeza do sorriso. Parecia uma caixinha de música ao luar. Um brilho de pingente no olhar. Um dia enfiou no nariz uma miçanga verde do colar da minha mãe. Foi um alvoroço. Os adultos levaram-na às pressas para o hospital. Eu fiquei ali, feito semi-folha caída, aos pés do abacateiro, chorando a falta da outra metade. Minha irmã mais velha me chamava para entrar: “Já é tarde!”. Eu não escutava. Sem a pequenina, não me conhecia. Deixava de ser árvore e me tornava humano. Perdia a leveza da folhagem. Porém, horas depois, bastou ouvir de novo seu riso inconfundível para que a claridade da alegria voltasse a inundar a escuridão do medo. Até hoje minha irmã sorri a vida. Absorve as dores no alvo algodão do sorriso. Fomos separados pela distância dos caminhos que a vida nos impõe. Longe dela, meu rosto quase se transformou em caricatura. A caricatura é a gagueira da face. Com minha irmã aprendi a soletrar-me. Da nossa infância, herdei essa irresistível atração pela vida ao ar livre. Hoje, sou folha embalada pelo vento da saudade.