Saudades de um Gafanhoto
ALEXANDRA APARECIDA JAHNEL PASCOAL
É estranho lembrar-se de coisas que se foram há mais de vinte anos, mais estranho ainda é conseguir se lembrar de rostos, da voz e dos sentimentos; mas para aqueles que conquistam nosso coração temos um espaço especial na memória.
Foram três anos de colégio agrícola; o dia todo com as mesmas pessoas, no final do primeiro ano já parecia que todos se conheciam há milênios, mas alguns se destacavam: o Binho era um deles, uma figura muito exótica, magro, muito magro; um nariz grande e fino, a pele parecia que sempre estava bronzeada, tinha os olhos ligeiramente puxados, tinha descendência de japoneses, mas puxara a cor do pai, que tinha a pele escura; filho de um delegado, praticamente caiu de paraquedas no colégio.
Rubens era demais, estava sempre rindo e brincando. Até a professora de química, que era uma verdadeira fera, se rendia e ria das peripécias do Rubens; os alunos de fora da cidade ficavam em um alojamento, proibido para as meninas é óbvio; Rubens tinha muitos bichos de estimação em casa e sentia falta disso. Um belo dia me aparece ele com uma caranguejeira negra e enorme; ele não a levava em uma caixa ou na mão, isso seria comum demais para ele; a levava na cabeça, abaixo do gorro; a aranha durou uns dois meses, morreu em um dia e no outro fizemos velório com velas e tudo, até um “caixãozinho” os meninos descolaram para a Gertrudes; nome estranho para uma aranha, mas sendo do Rubens...
Um dia Rubens me aparece com um brinco na orelha, hoje é normal, mas em 1983 não era tanto assim; a orelha estava toda vermelha e ficamos preocupados que ele tivesse algum tipo de infecção; mas Rubinho nos tranquilizou, aquilo tinha sido o pai dele que puxara sua orelha até cansar; apesar dele ter ficado o final de semana inteiro de gorro para o pai não perceber o brinco, fora descoberto; Binho dizia que o pai escolhera a profissão correta, era um bom investigador ou tinha mediunidade; lembro-me de rir muito e lhe responder que não havia mágica nem tampouco aptidão para detetive... Era novembro, fazia um calor medonho e o caro Rubens queria que o pai pensasse o quê com aquele gorro de lã enfiado da cabeça ao pescoço?
O tempo de colégio passou muito rápido, foi rápido demais mesmo; em um piscar de olhos já estávamos no segundo ano e fomos para Presidente Prudente, a primeira e única agro-olimpíada; jamais o governo do Estado de São Paulo se arriscaria a juntar tantos “agricolinos” assim em um único lugar novamente, mas nós detonamos Prudente, no bom sentido ao menos. Trouxemos um troféu lindo por artesanato, mas a peça de teatro foi um terror, eu estava nela; não me lembro com qual modalidade Rubens foi, mas que foi isso foi; aquela Semana da Pátria foi uma das melhores semanas da minha vida, estava gozando de uma liberdade que jamais tivera, chegava tarde todos os dias, passeava sem se preocupar com a hora e uma das figuras constantes era meu querido Binho; conversamos muito naquela semana.
Durante os três anos como interno no colégio, Rubens sempre acabava encontrando um ou outro bichinho para suprir sua necessidade de bichos de estimação; o mais engraçado deles foi o “Binhinho”, um gafanhoto que não pulava; por vezes Binho ficava pelos corredores pulando para o gafanhoto; ver e fazer igual, era hilário e lhe rendeu o apelido de Gafanhoto, mais precisamente de Gafanha.
O colégio terminou, morando em cidades diferentes ficava muito difícil o contato; uns três ou quatro anos depois mandei um cartão e uma carta contando as novidades; recebi um cartão da mãe dele dizendo que ele estava no Japão e que tinha enviado a carta para lá; pouco antes do Natal daquele ano recebi um cartão que tinha uma ilustração belíssima do Monte Fuji, apenas com uma frase: “Que saudades do sol, da praia, dos bumbuns... aqui só tem neve. Beijos na ponta do nariz. Gafanha”. Depois disso foram anos sem contato, cheguei a mandar cartões para o endereço duvidoso do envelope, jamais tive certeza que chegaram; algum tempo depois recebi um cartão bem humorado da Flórida, era uma baratinha com a camisa da seleção brasileira; no interior apenas uma frase: “Agora tenho praia, sol e bumbuns... mas nenhum tempo para aproveitar isso tudo... você iria adorar os raios das tempestades. Beijocas e mais beijocas. Binho”. Depois disso não tive mais notícias;, algumas cartas e cartões voltaram, até mesmo do antigo endereço da mãe dele; foram mais de quinze anos sem saber nada daquele maravilhoso amigo.
A falta que Rubens me fazia não era somente dos risos, das brincadeiras e das traquinagens que fazíamos; as lágrimas é que me faziam sentir mais falta dele; inúmeras vezes havia chorado em seus ombros, muitas vezes ele havia enxugado minhas lágrimas, outras ele me fazia rir, mas muitas vezes ele chorou comigo; essas coisas são difíceis de esquecer.
O tempo age de formas estranhas; me levou longe e me trouxe de volta; minha vida deu voltas e também me tornei uma pessoa difícil de se encontrar; então quando uma jovem amiga me apresentou o Orkut, passei a buscar os velhos amigos do tempo de Colégio Agrícola, em especial o amigo Gafanha. Foi mais de um ano para conseguir localizar alguns amigos, mas não o Binho, imaginei que talvez estivesse no exterior... estava... de certa forma.
Coloquei fotos no meu perfil do Orkut, algumas com mais de vinte anos; uma das colegas me disse que eram um grande tesouro, que muitos já não estavam entre nós, o que incluía meu querido Binho.
A morte jamais foi algo devastador para mim, sempre a considerei uma passagem, uma forma de voltar ao princípio, de ir para as Terras de Verão eternas; mas foi inevitável que as lágrimas rolassem; não perguntei como ou quando, não importava, ele havia partido para um lugar onde não poderia lhe mandar um postal... mas meus pensamentos podem chegar, principalmente se tudo vier direto do coração:
“Gafanha, não sabe a saudade que sinto de você; é difícil estar por aqui e saber que não o verei agora para fofocar por horas sobre os últimos vinte e três anos; cresci, amadureci, encontrei o amor, me casei, sou feliz; sinto falta das brincadeiras, do tempo sem tanta responsabilidade e de amizades sinceras como a nossa. Jamais lhe agradeci pelas lágrimas que secou, por aquelas que evitou que rolassem e por aquelas que compartilhou; não sabe o quão importante foi para mim e quanto carinho sempre tive por você; queria ter-lhe dito isso naquele tempo, mas coisas acontecem e nos impedem de fazer o que deveríamos; muita luz meu amigo, muita saudade Gafanhoto”.